|
| TEXTO RAQUEL MAIA ILUSTRAÇÕES KAKO |
FEITIÇO. É DAÍ QUE VEM “FETICHE” (do francês, fétiche). Se por um lado a palavra era usada para referir-se a superstições em tribos africanas, por outro – o da psicologia –, entrou para um contexto sexual. Na década de 1970 alguns estudiosos acreditavam que o fetichismo não era uma incapacidade de amar ou se interessar por uma pessoal real, e sim apenas por uma parte dela.
Hoje, porém, dá-se sentidos mais amplos. Especialistas em sexualidade afirmam que o fetiche pode se originar de diversas formas. Há quem defenda que, em maior ou menor grau, todos nós temos um. “Cada pessoa sente-se mais atraída por determinado estilo de vestimenta ou por indivíduos dotados de certos atributos ou características físicas”, escreveu o psicólogo especializado em Terapia Sexual Oswaldo Martins Rodrigues Junior, em seu livro Objetos do desejo – Das variações sexuais, perversões e desvios (Editora Iglu).
Não dá para identificar um fetichista no dia-a-dia só ao conversar com ele (ou ela). De fato, a maioria é de homens, apesar de haver muitas adeptas. “Não há um código ou sinal. Alguns escondem-se nas pessoas mais improváveis”, conta a ginecologista e terapeuta sexual Franciele Minotto. Ela lembra que é preciso diferenciar fetiche de parafilia. “Fetiche é quando você se excita com, por exemplo, bota de couro ou ver alguém transando, mas isso não é o único meio de se excitar, é algo como uma fantasia que às vezes você se permite. Parafilia é quando você só tem desejo com determinada prática, como o exibicionista que só se excita se alguém o estiver espionando ou assistindo a tudo. Isso torna o prazer um pouco limitado”, explica a médica.
Segundo Diego Henrique Viviani, psicólogo e pesquisador associado ao Instituto Paulista de Sexualidade, direcionar o erotismo como forma de obtenção maior de prazer indica um comportamento bastante interessante para um casal. No entanto, quando isso não está bem adaptado entre o homem e a mulher, há um impedimento de vida sexual satisfatória. “Ou seja, quando um fetichista encontra uma pessoa que corresponda às suas fantasias, pode ser muito bom, mas quando não, pode surgir uma dificuldade”, diz o psicólogo.
“Porém, muitas vezes não é preciso mudar o comportamento, e sim fazer um trabalho de adaptação para que essa conduta se torne mais aceitável.”
Fantasia = fetiche? Não. O primeiro é só imaginário, enquanto o segundo é posto em prática. Por isso, preferimos o fetiche
Na China do século 10
Havia o costume de atrofiar os pés das jovens. Acreditava-se que isso deixava os músculos da vagina mais apertados
Um mundo de possibilidades
EXISTEM VÁRIOS TIPOS DE FETICHES, QUE VÃO DESDE O INTERESSE POR ROUPAS DIFERENCIADAS, COMO DE BORRACHA E COURO (HÁ QUEM COLECIONE CALCINHAS E OUTRAS PEÇAS FEMININAS), ÀQUELES QUE USAM UM POUCO MAIS DE... FORÇA. MAS AQUI ENTRAMOS NO UNIVERSO DE APENAS TRÊS: PODOLATRIA, VOYEURISMO E BONDAGE. DÊ SÓ UMA OLHADA:
Só uma espiadinha?
Roy* gosta de observar casais desconhecidos transando. Sempre que consegue, acompanha pela janela todos os movimentos da vizinha, na esperança de vê-la trocando de roupa ou, quem sabe, numa cena mais “quente”, sozinha ou acompanhada. Também já pediu para uma ex-namorada fazer sexo com outro homem enquanto ele ficava ali, só contemplando. Depois disso, segundo ele, o prazer da masturbação é maior. Bem maior. “Gosto de observar pessoas em situações excitantes desde o começo da adolescência. Adorava ver minhas primas tomando banho pelo buraco da fechadura. Mais tarde, sempre tentava flagrar os casais em situações mais picantes. Uma vez, consegui ver uma prima e o namorado transando e, em vez de atrapalhar os dois, fiquei só observando e aquilo me deixou excitado”, conta.
O voyeurismo, que é a excitação em observar pessoas na sua vida íntima, é algo que deve ser encarado e feito de forma cuidadosa. Afinal, praticá-lo sem o consentimento alheio pode ser considerado um crime, mesmo que ele se caracterize pela não-interação com as pessoas envolvidas. “Alguns voyeuristas contentam-se com filmes ou criam situações fictícias juntamente com suas parceiras a fim de encenarem que um está escondido e o outro se trocando, tomando banho ou se masturbando. Também vemos em revistas casais que oferecem contato a fim de encontrar alguém para que um deles somente assista à relação da parceira com outra pessoa”, explica o psicólogo Diego Henrique Viviani.
No caso de Roy, a internet foi o ponto de partida para conseguir levar a prática adiante. “Já encontrei muitos exibicionistas em sites de relacionamento. Casais, mulheres... Só não tenho vontade de observar homens”, conta. “Nem preciso ver pessoalmente. Com uma simples webcam é possível viajar muito longe”, completa.
Amarradões em bondage
Aqui, o prazer é imobilizar ou ser imobilizado. Com os movimentos impedidos pelas amarras, cordas, algemas, entre outros objetos, os praticantes não são, necessariamente, sadomasoquistas, uma vez que há muitas pessoas que não usam algo mais forte nessas condições. É o caso de Misty*, praticante há 11 anos: “É perfeitamente possível praticar bondage sem dor ou dominação psicológica, o que seria BDSM por definição. A diferença é que, para bondagistas, a amarração é feita apenas para excitação sexual, e para os adeptos de BDSM é uma etapa para outras práticas”. Explicando: a sigla BDSM significa Bondage & Discipline, Domination/submission, SadoMasochism (Bondage & Disciplina, Dominação/submissão, Sadomasoquismo). Ele ocorre quando, além da amarração, há a provocação de dores ou controle psicológico. Misty também frisa que nem toda mulher que gosta de ser amarrada é submissa. “Assim como há masoquistas que não são submissos, geralmente a bondagette não o é. Ao contrário, curte resistir à amarração, ser pega ‘de jeito’ e não receber ordens ou chamar o parceiro de dono”, conta.
O bondage deve ser praticado com muita segurança. Antes de mais nada, é preciso achar a pessoa certa. “É difícil encontrar quem goste. Quando estou solteira, pratico com amigos, mas tem que ser alguém muito especial, ter afinidade, confiança e, no mínimo, uma atração física, porque mesmo que se faça só o bondage, sem transar, é uma situação que envolve uma carga sexual muito forte”. A moça tem prazer em ser amarrada e se sentir desejada, está muito bem-resolvida quanto ao seu fetiche e normalidade, mas prefere não comentar o assunto com qualquer pessoa. “Muitas vezes, a gente gosta disso e nem sabe que existe o fetiche e que ele tem um nome”, diz. Cássio* também teve a tal “atração estranha” desde criança, quando seus olhos brilhavam ao ver imagens de mulheres amarradas e amordaçadas em capas de livros ou em filmes. “Viria a saber depois que aquilo que me excitava tinha um nome: bondage. Mas isso só uns anos depois, graças à internet”, conta. E completa: “A web também me fez descobrir que há diversas variações e preferências do bondage, mas eu sempre gostei dessa coisa algo ingênua e algo perversa, que é a fantasia da ‘donzela em perigo’. E tão logo comecei minha vida sexual, fui logo experimentando as possibilidades dessa fantasia. E creio que ainda há muito a explorar”.
Inside | Sexo seguro
ALGUNS ITENS DE SEGURANÇA QUE VOCÊ DEVE SABER ANTES DE LEVAR ADIANTE UM FETICHE:
Os iniciantes devem começar com materiais macios, como tiras de tecido que não deixam marcas e são fáceis de desamarrar. E mais: ter uma tesoura sem ponta à mão.
Muitas vezes, uma simples imobilização leve dos pulsos ou tornozelos já é extremamente excitante – e seguro.
É importante pesquisar técnicas e posições na internet para não machucar ou ofender a parceira.
Comunidades
Amarrando as informações Gerenciado por Misty, este blog traz depoimentos, informações e dicas sobre bondage, com muita paciência e bom humor.
http://sex-bondagerocknroll.blogspot.com/
As pegadas da podolatria. Encontros, vídeos, fotos, comentários e até conferências sobre o fascínio dos pés.
www.peslindos.com.br
Tira-dúvidas
VEJA CINCO RESPOSTAS SOBRE O FETICHISMO:
- Fetiche é algo passageiro ou quem tem, terá a vida inteira?
Depende. “Muitas pessoas conseguem satisfazer um desejo sexual uma única vez e isso é o suficiente, outras precisam unicamente dos fetiches para ter prazer”, conta o psicólogo.
- A educação sexual repressora leva ao fetiche? Ou é o contrário?
Segundo a doutora Franciele Minotto, a educação repressora é maléfica para toda a sexualidade. “O máximo que essas pessoas conseguem é ter pequenas fantasias.”
- Quem é fetichista deve conversar com os parceiros sobre isso?
Sim, principalmente se o fetiche for a única forma de obtenção de prazer dessa pessoa. O fato de conseguir expor essa preferência de forma clara pode possibilitar um encontro sexual mais prazeroso.
- Quais os fetiches mais comuns?
“Não há estudos sobre isso, mas a mídia tem nos assinalado algumas práticas, como sexo em lugares públicos, a podolatria, lingerie e roupas de couro”, explica Diego Henrique Viviani. Já a ginecologista e terapeuta sexual Franciele Minotto, em sua experiência profissional, aponta o voyeurismo, exibicionismo e sadomasoquismo.
- É comum reprimi-lo e nunca colocá-lo em prática?
Pode acontecer, por medo de repreensões e discriminações. Um profissional especializado pode lhe ajudar a manter fetiches e exercer sua sexualidade de forma prazerosa. Quem sofre de ansiedade por não saber aceitá-lo também deve recorrer à psicoterapia, reduzindo sentimentos de culpa.
FETICHE:ESPIÁ-LA, BEIJAR SEUS PÉS OU AMARRÁ-LA SÃO PRÁTICAS QUE SÓ TORNAM ESSE CORPO MAIS BELO E ESTIMULAM AINDA MAIS O PRAZER. “SE ELA CONCORDAR COM ISSO TUDO, É LÓGICO”
CÁSSIO*, 29, FETICHISTA CONVICTO
|