AZULADOS
 
Fumaças Azuladas
 
ALGUNS MOTIVOS PELOS QUAIS VIREI UM FÃ INVETERADO DE CHARUTOS, COM MAIOR PRAZER

 

TEXTO POR MARCELLO BORGES

 



SIM, FUMEI CIGARROS. Dois maços por dia, às vezes três. Na época, tinha a impressão de que a gente ficava mais “bacana”, que as meninas iam gostar do lance de acender o Zippo no jeans. Bem, como diz um ditado francês, si jeunesse savait, si vieillesse pouvait – ou “se o jovem soubesse, se o velho pudesse”. Quando me dei conta disso, parei de fumá-los.Mas descobri, anos depois, o charuto. Diferenças: o cigarro é o fumo nervoso, o charuto é o prazeroso. O primeiro é solitário, o segundo, gregário: convidam-se amigos para tomar um Porto ou mesmo um café e, entre as volutas azuladas da fumaça, recordam-se bons momentos.

 

Mas hoje é difícil ser charuteiro: leis municipais cada vez mais severas – imitando grandes centros mundiais – restringem o espaço de tabacarias a restaurantes com mesas ao ar livre, ou então em casa. Nem todos compreendem como alguém pode gostar da fumaça do charuto. Eu é que não entendo como pode ser mais fácil tolerar a fumaça de cigarros que a de charutos. Mesmo assim, antes de acender o seu, pergunte às pessoas mais próximas se elas se incomodam.

 

É que o charuto pode transmitir duas mensagens ao resto do mundo. A primeira é indesejável: “Tô nem aí se você não gosta”. A segunda é legal: “Conheço os melhores prazeres do mundo: bebo bons vinhos, como bem, tenho uma companheira legal e completo minha refeição com um charuto, como se faz na maior parte do Velho Mundo”.

 

É verdade: antigamente, se você entrasse num restaurante da Espanha e perguntasse ao maître onde poderia fumar charuto, ele responderia, espantado: “Ora, meu senhor, onde quiser!” (como quem diz: “Que pergunta!”). É o princípio do  slow food – refeições longas e lentas – ou do carpe diem (“aproveite seu dia”).

 

Poucos acessórios: um cortador de lâmina dupla, um isqueiro (o ideal são os “maçaricos”), um estojo de couro e uma caixa com umidade controlada (perto de 70%) para preservá-los. Marcas, procedências? Parte do prazer do charuto consiste em percorrer o grande universo de tipos, formatos e fabricantes.

 

Fumar vai bem com o quê? Nesta edição de UM você terá uma idéia lendo sobre uma harmonização entre charutos e vinhos do Porto, uma combinação excelente. Cai perfeito também com rum, conhaque, café, licor, vinho, até Coca-Cola. Champanhe ou espumante ajudam a limpar o paladar. Você só não deve fazer como o Groucho Marx: quando a mulher dele deu o ultimato “ou os charutos, ou eu”, ele disse: “Podemos manter a amizade?”

 

Marcello Borges é co-autor de O Livro do Charuto, advogado, tradutor, diretor da revista Wine style e estudioso dessas geringonças sem as quais o homem não consegue sobreviver em NY, Genebra ou São Vicente

 

 

Extras


- Prazer restrito: claro, pergunte se a fumaça vai incomodar as pessoas mais próximas. Charuteiro, hoje, só falta ser proibido de fumar em casa

 

Máximas de Groucho Marx
O mais famoso dos irmãos Marx, célebre grupo de comediantes do século 20, Julius Henry era um frasista nsuperável: “O segredo da vida: honestidade e jogo limpo. Se conseguir fingi-los, você está feito!”

 



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