Ele Criou O Boticário
 

PÁGINAS ESPECIAIS HISTÓRIA DE VIDA

O ALQUIMISTA DA VITÓRIA!


 

O HOMEM QUE CRIOU E FEZ CRESCER O BOTICÁRIO, A MAIOR FRANQUIA DE BELEZA DO MUNDO, CONTA SUA TRAJETÓRIA EMOCIONANTE

| ENTREVISTA JOANA WOO FOTOS MARCELO ROMANI |



Miguel teve uma infância cheia de mudanças. Nasceu na Bolívia e aos 11 anos se mudou para o Brasil. A presença de um pai heróico e decidido, e a perda da mãe quando ele era ainda muito jovem são marcas que o ajudaram a superar desafifios de sua vida.
A sua trajetória é a de um predestinado, com o talento dos alquimistas.
Miguel é um visionário.



Joana: Tenho muita curiosidade sobre a sua história. Seus pais foram fundamentais para você ser um homem vitorioso?
Miguel: Meu pai era judeu polonês. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial escondido num celeiro de um amigo cristão. Ele e mais um irmão e duas irmãs ficaram quase toda a guerra refugiados ali. Só saíam à noite. Quando acabou o conflito, meu pai tinha uns 42 kg. Perdeu oito irmãos, pais, avós e tios, todos levados às câmaras de gás.


J: Foi quando ele resolveu sair da Europa?
M: Ele ficou até 1947 ou 1948, então foi para a Bolívia começar a vida do zero. Chegou lá com US$ 10 ou US$ 15 no bolso. Escolheu a Bolívia porque era um dos únicos países da América do Sul que dava visto de entrada para judeus.


J: E a sua mãe?
M: A história dela é um pouquinho diferente. Ela nasceu na Alemanha, mas meus avós saíram de lá quando começaram os grandes movimentos anti-semitas. Minha mãe, caçula da família, acabou indo com eles para a Bolívia. As duas irmãs mais velhas foram para a Palestina. Ainda não existia o Estado de Israel (criado em 1948). Elas entraram para o exército e ficaram até nascer o Estado.


J: Como seus pais se conheceram?
M: Foi em La Paz. Casaram-se três meses depois de se conhecerem Naquela época não tinha muito que ficar namorando, era um momento dramático na vida das pessoas. Imagina um europeu só com o primário chegar em La Paz, há 50 e poucos anos. Começaram a fazer a vida. A sorte é que La Paz acabou se tornando um núcleo de sobreviventes. Havia todo um trabalho de cooperação, porque quem chegava lá eram pessoas que tinham perdido grande parte da família ou não sabiam se ela estava viva ou morta. Então era um local de muita solidariedade.


J: E o seu nascimento tem uma história interessante?
M: Bom, em 1950, nove de janeiro, nasci em La Paz. Tive o privilégio de ser “fabricado” na lua-de-mel. Porque meus pais casaram no dia dois de abril e eu nasci em janeiro, nove meses e sete dias depois. Tudo por amor.


J: Você estudou na Bolívia?
M: Fiz todo o curso primário lá, na escola americana. Quando eu tinha 11 anos, meu pai decidiu vir pro Brasil. Chegamos aqui em 1961.


J: Quanto tempo depois você voltou pra La Paz?
M: Só após uns 30 anos. Foi interessante porque as referências que eu tinha na memória eram bem diferentes. Fui ver a casa onde eu morava. Tinha a impressão de que era enorme, e quando vi, era pequenininha.


J: Na infância em La Paz houve alguma pessoa que foi marcante, uma paixão?
M: Acho que tive minha primeira namorada lá. Era uma vizinha. Foi muito interessante porque, quando eu fui para lá alguns anos atrás, com a Cecília, minha esposa, eu virei notícia. Fui para inaugurar uma loja em La Paz. Quando cheguei ao hotel, tinha um bilhetinho dessa “menina”, pedindo para ligar. Acabamos nos encontrando, eu, a Cecília, ela e o marido dela. Foi minha amiguinha de infância. Chamava-se Lilian e eu jamais imaginava reencontrá-la.


J: Quando criança, você queria ser o que quando crescesse?
M: Desde criança eu gostava muito de brincar de encher frascos plásticos de grafite. Tinha vários tamanhos e eram importados. A dona de uma papelaria guardava para mim e me dava. Eu enchia de água e pintava com aquarela de várias cores. Gostava sempre de colocar na estante. Muito mais pela estética, mas sem ter noção de absolutamente nada. Naquela época eu era muito ligado ao meu pai e o sonho dele era que eu fosse médico. Ou engenheiro. Eu nem imaginava o que queria ser, pensava em agradar o meu pai. Mas depois a vida foi mudando.


J: Do que você mais gostava?
M: Naquela época eu também adorava bonecos, fantoches e marionetes. Depois construí um teatro de fantoches no Shopping Estação, em Curitiba e patrocinei um livro sobre a arte bonequeira no Brasil: Vida de boneco.


J: Seu pai queria que você fosse médico, e a sua mãe?
M: A lembrança que eu tenho da minha mãe é a de uma pessoa muito doente. Ela tinha problemas cardíacos sérios e La Paz era uma cidade muito inadequada. Tinha a questão da altitude e sempre precisávamos sair de lá para poder respirar. É um lugar com avenidas íngremes. Para ir de um lado a outro você acaba tendo que subir e escalar uma ladeira enorme. Para quem tem problemas cardíacos é terrível. Minha figura materna foi Sempre a de uma pessoa frágil, mas amorosa comigo. Eu era muito amigo dela, que vivia no médico. Hoje tenho pavor de conversas sobre doenças e geralmente as pessoas gostam de falar disso para mostrar o quão grave é o caso delas. Esse tipo de assunto não me faz bem.


J: Vocês se mudaram para o Brasil por causa de sua mãe?
M: Não, mudamos porque já tinha uma irmã do meu pai que residia aqui. Sempre pensamos em América do Sul, e o melhor lugar pra morar era o Brasil, por ser uma potência, pela imensidão. Lembro que meu pai veio para uma festa. Quando voltou, decidiu que íamos morar aqui. Em 1961 vendemos tudo que tínhamos. Ele conseguiu juntar US$ 21 mil. Esse número ficou marcado na memória.


J: Como foi a chegada da sua família no Brasil?
Lembro que, para chegar aqui, tinha que dormir em Corumbá (hoje no MS) e depois em Presidente Prudente (SP). Então passava por São Paulo, e só daí ia para Curitiba. Em 1962 eu perdi minha mãe. Ela faleceu por causa dos problemas cardíacos e umas complicações no útero. Tive muita dificuldade para conseguir lidar com essa perda.


J: Como era a sua vida na época?
M: Logo que entrei no ginásio já comecei a trabalhar com meu pai. Ele tinha aberto uma loja de confecções na Rua 15 de Novembro, chamada Moda Genia, no centro de Curitiba. De manhã eu estudava e à tarde trabalhava com ele, principalmente no caixa. Meu pai foi meu maior mestre em como tratar o consumidor. Ele tinha um cuidado enorme na relação com os clientes, sabia o nome, a história. Perguntava sobre a família das pessoas. Sabe essas coisas que aproximam o relacionamento?


J: Seu pai se casou novamente?
M: Não. Ele não quis porque tinha receio de ser viúvo com dois filhos e medo de casar com uma mulher que não pudesse ou quisesse cuidar deles de uma forma adequada. Por um lado foi bom, mas também ruim porque as recordações da minha juventude são de empregadas domésticas entrando e saindo da minha casa. Foi uma fase muito difícil.



As mulheres sempre foram marcantes na vida de Miguel. Hoje seu ponto de equilíbrio é a esposa Cecília. Tem duas filhas e, orgulhoso, conta histórias da contribuição das três no sucesso do Boticário. Miguel, pessoa incomum, nunca desejou ter filho homem. Na infância e adolescência duas mulheres delinearam seu universo afetivo: a mãe, uma figura frágil, amorosa e delicada, e Tia Ruth, mulher forte, firme, conquistadora e à frente de seu tempo. Ele fez desta alquimia de força e delicadeza uma empresa que é, sem dúvida, um presente para as mulheres. Tem no DNA a riqueza da alma feminina



J: Além da sua mãe você teve outra figura materna especial, a tia com quem você morou em São Paulo...
M: Sim, tia Ruth, irmã mais velha da minha mãe. Ela saiu de Israel e foi viver nos Estados Unidos. Quando minha mãe faleceu, já morava no Brasil, em São Paulo. Como ela casou supertarde e não teve filhos, eu era como um filho dela. Foi uma pessoa importante durante minha vida. Era uma mulher guerreira, transgressora, liberal e lindíssima. Ela me disse uma das frases mais marcantes em termos de mudança da minha vida.


J: Qual frase?
M: Logo que minha mãe faleceu até entrar na faculdade, não tinha sido um aluno muito aplicado. Em 1970 meu tio faleceu e fui morar com essa minha tia. Resolvi fazer cursinho em São Paulo. Foi no Objetivo, porque meu pai me enchia querendo que eu fizesse Medicina. Mas continuei matando aula. Poderia ter sido crítico de cinema porque cabulava e ia ver filme. Até que um dia minha tia me pegou pra conversar. Eu disse que precisava ficar um mês em Santos ou no Guarujá para pensar na minha vida. Ela concordou e me falou que eu poderia ficar um mês lá se quisesse, mas que deveria pensar na vida mesmo, nada de praia. Aí ela disse: “Olha, é o seguinte: você quer que as pessoas olhem pra você e digam ‘aquele é o filho do Seu Jacob’, ou você vai querer que um dia elas digam: ‘O Seu Jacob é o pai do Miguel?’” Essa frase foi decisiva na minha vida.


J: No nosso almoço você contou que durante um tempo a Cecília, sua esposa, trabalhou no Boticário.
M: Ela e as minhas duas filhas são a essência da minha vida. Colaboraram muito com o meu sucesso profi sional. A Cecília é o meu ponto de equilíbrio. Sempre dividi tudo com ela e minhas filhas, até quando fui lançar uma fragrância...


J: Como você conheceu sua esposa?
M: Ela também é da comunidade judaica, e eu sempre a via, mas não tinha contato. Em 1979 veio me pedir um estágio. Estava cursando o penúltimo ano do curso de Farmácia. Concordei e logo depois começamos a namorar. Em um ano e sete meses nós namoramos, noivamos e casamos. Foi exatamente nesse período que meu pai faleceu.


J: O Boticário já estava bem?
M: Comprei o terreno onde está a fábrica em 1980. Meu pai chegou a ver a área, mas não o prédio. Morreu em agosto de 1980. Nessa época todo mundo já falava no Boticário. Eu já não era apenas o filho do Seu Jacob


J: Você sempre valorizou as mulheres e nunca deixou de dar altos cargos executivos para elas. Por quê?
M: Sempre fui admirador e observador das mulheres. Acho que um pouco sedutor também. Tive muitas namoradas. Observava o comportamento feminino, como funcionava. Naquela época não era nada comum um homem falar de emoção. Homem tinha que ser macho. Descobri que falar de amor, de beleza e de acolhimento era falar diretamente com a alma feminina. Homem não usava perfume naquela época. Era só desodorante e olhe lá.



A história de Miguel com O Boticário tem muitas coincidências pelo caminho. Cursar Farmácia foi como um presente insistente do destino. Iniciar a carreira com a idéia do retorno às farmácias de manipulação foi um insight. Escolher um nome romântico para a empresa – que lembrasse os antigos farmacêuticos – foi uma inspiração. Misturar tudo isso com ingredientes inovadores e a melhor tecnologia disponível no Brasil resultou numa alquimia de elementos para uma marca de sucesso. Mas é preciso ser um empreendedor nato para perceber, nas situações mais simples ou inusitadas, a oportunidade única para girar a espiral da prosperidade.



J: Por que você decidiu estudar Farmácia?
M: Como falei, meu pai queria que eu fosse médico. Após cursar o Objetivo em São Paulo, voltei pra Curitiba e tentei fazer Medicina em algumas escolas, só para agradá-lo. Fiz um “vestibatur”, visitei o interior de São Paulo, de Minas e do Rio de Janeiro. Conheci quase todas as faculdades de Medicina, mas no fundo eu não queria. Quando voltei a Curitiba, falei pra ele que ia fazer Farmácia e Bioquímica. Passei de cara no vestibular de Farmácia em 1972.


J: Como seu pai lidou com essa decisão?
M: Ele dizia que se eu não fizesse Medicina ia acabar trabalhando num laboratório de análises clínicas e implorar para os médicos me mandarem um exame ou mexer em dejetos. Durante todo o curso de Farmácia meu pai dizia que quando eu terminasse poderia fazer Medicina sem prestar vestibular, porque eu já teria alguns créditos na faculdade. Era o sonho dele. No dia da formatura todos os pais estavam contentes de seus filhos farmacêuticos. Menos o meu.


J: Como começou O Boticário?
M: Eu tinha 28 anos e acabado de me formar. Saí da faculdade tarde porque tinha reprovado dois anos. Continuava não querendo trabalhar na loja. Queria tentar alguma coisa diferente. No Rio Grande do Sul começou uma febre de retorno às farmácias de manipulação, principalmente voltadas à dermatologia e à pediatria – porque antigamente todas as farmácias eram manipuladas. Eu pensei que essa podia ser uma boa idéia pra fazer em Curitiba.


J: Quando abriu a primeira loja?
M: Abri a farmácia em 1977 e meu pai aprovou, mas disse que não tinha muito dinheiro para emprestar. Só sei que eu consegui juntar US$ 3 mil e aluguei uma loja meio distante do centro de Curitiba. As coisas foram evoluindo e acontecendo. Agora, quando eu olho para o passado, vejo que estava formando um quebra-cabeça em que as peças já estavam mais ou menos desenhadas, só era preciso encaixá-las. O desafio era como conseguir.


J: Como foi escolhido o nome O Boticário?
M: Na verdade, boticários eram os antigos farmacêuticos. Então, numa discussão entre a gente surgiu a idéia. A Botica ou O Boticário. Decidimos por O Boticário porque, além do significado, remete a uma coisa mágica. Mas boticário não é um bruxo, e sim um mago do bem. Então passei a me interessar pela ligação entre a cosmetologia e a dermatologia, que já estavam ali.


J: Mas você saiu do padrão e fez algo diferente.
M: A única maneira de crescer era fazendo algo completamente diferenciado. Uma vez que não havia embalagens muito sofisticadas e nem publicidade. A única coisa que poderia levar a marca era a qualidade do que vai dentro. Se você observar, a maioria dos cremes são brancos e você só descobre se é bom se usar. Daquela época até hoje, a busca pela perfeição é quase uma neura. Buscamos inovação, estar à frente do nosso tempo, trabalhar com as melhores matérias-primas possíveis.


J: Sem propaganda, como O Boticário ficou conhecido?
M: Os primeiros produtos que nasceram eram bons e as pessoas que compravam faziam propaganda boca a boca. Foi assim que O Boticário se difundiu em Curitiba. Na época os nossos cremes eram com colágeno, elastina e isso era muito moderno para a época. As pessoas comentavam. Pegamos o gancho dos produtos naturais que já era uma tendência internacional. Era comum usar extratos vegetais dentro dos cosméticos. Então, formulávamos tudo com o que tinha de melhor no mercado.


J: A loja do aeroporto de Curitiba é um marco para O Boticário.
M: Essa loja no aeroporto Afonso Pena foi muito importante porque, por meio dela, O Boticário saiu de Curitiba. A história dela é assim: eu estava voltando de viagem e, enquanto esperava minha mala, via que estavam sendo construídas cinco lojas. Perguntei para um funcionário e ele me disse que eram da Infraero.
Telefonei na Infraero e me informaram que seriam uma de couro, uma de presentes, uma de lembrancinhas de Curitiba e disseram que queriam uma farmácia. Na época o aeroporto tinha apenas 12 vôos. Numa continha rápida e de cabeça vi que ninguém ia querer abrir uma farmácia lá. Na licitação eu disse que faria uma filial da minha farmácia de manipulação. E ganhei.


J: Essa loja é o embrião do sistema de franquias?
M: Eu não tinha ainda as franquias, mas foi a loja que divulgou nossos produtos para o Brasil. Como eram perfumes brasileiros só encontrados em Curitiba, e de qualidade, as pessoas compravam para dar de presente. Funcionários das companhias aéreas levavam sacolas cheias para vender.


J: Foi nessa época que você soube que o Silvio Santos queria vender cosméticos?
M: Sim, no final dos anos 70, o Silvio Santos ia lançar uma linha de cosméticos. Já tinha até as embalagens. Ele ia terceirizar a fabricação e armazenar em barracões, só que recebeu a concessão para a emissora de TV e precisou deles para fazer os estúdios. A marca se chamaria Chanson. Queria concorrer com a Avon, Cristian Grey e Natura.


J: Você então comprou quantos frascos?
M: Comprei 60 mil frascos sem saber como ia pagar, mas comprei. Aí foi uma loucura. Quando eu contei para os meus sócios que tinha comprado aquilo tudo, eles enlouqueceram. Lembro que a primeira duplicata tivemos dificuldade em pagar. A segunda foi mais fácil e assim por diante. Eu mal sabia que tinha comprado a alma do Boticário: as ânforas de Acqua Fresca, Thaty e mais outras fragrâncias. Então surgiu a primeira linha. Eu tinha vidros pintados com perfumes diversos e umas quatro versões masculinas.


J: Se você continuasse vendendo a mesma quantidade daquela época, quanto tempo iam durar os frascos?
M: (Risos) Anos! Mas eu senti que aquele funcionário do Silvio Santos queria limpar o barracão e por isso qualquer oferta era boa e qualquer prazo era bom. O importante pra ele era se livrar daquilo. Porque não havia nenhuma empresa brasileira que pudesse absorver aquilo tudo.


J: Nessa época quantas lojas O Boticário existiam?
M: A primeira e a loja do aeroporto.


J: E, afinal, quanto tempo duraram os 60 mil frascos?
M: Uns dois anos e meio. Mas as coisas começaram a acontecer numa velocidade tão grande que, em 1982, compramos uma área de 1.000 m2 e os primeiros franqueados começaram a aparecer. As pessoas queriam exclusividade, garantia de abastecimento e treinamento para vender os produtos em suas cidades. No começo eu tinha receio de liberar o nome e as primeiras franquias chamavam Campeche – Representante exclusivo dos produtos do Boticário de Curitiba em São Paulo – e Maçã Verde – Representante do Boticário de Curitiba no Rio. Em Fortaleza era Favo. Em 1985, as franquias passaram a chamar O Boticário e até hoje é assim.


J: Foi depois de dois anos de franquias espontâneas que a marca O Boticário fez a unificação?
M: A primeira convenção aconteceu em 1985 quando houve a unificação da marca, do layout, do manual de procedimentos. Tudo como manda o figurino. Em julho de 1985, quando existiam 500 franqueados, decidimos trocar o nome de todas as lojas e começamos a discutir como seria o padrão de negócio. O modelo de franquias ainda não existia no Brasil. Nem o McDonald’s estava aqui. Algumas pessoas reclamaram e outras gostaram. E desde o início eu disse que o preço devia ser tabelado e que as lojas deviam ser idênticas.


J: Como você conseguiu implantar esse novo sistema?
M: Fiz as pessoas entenderem que era melhor ter uma imagem global. Eu não poderia vender uma Acqua Fresca por um preço “x” num lugar e por “y” em outro. Hoje uma franquia precisa apenas de um bom operador, porque o dono recebe um pacote com todas as informações. Os franqueados começaram a entender que eles eram proprietários do negócio, mas nós do conceito. Precisávamos ter um elo de ligação. Ser o mesmo O Boticário de norte a sul do país.


J: Quais foram os outros pontos marcantes na história do Boticário?
M: O lançamento da colônia Thaty. É o diminutivo de Tatiana, minha segunda filha, e eu achava esse nome muito charmoso. Além de ter um diferencial muito legal, era uma fragrância azul. Coisa inédita. A abertura da loja mil em 1990, que fica na Rua 15 de Novembro, em Curitiba, também foi interessante porque foi uma loja que eu comprei exatamente em frente da que era do meu pai. Outro marco de 1990 foi a inauguração do prédio administrativo. Desde o nascimento do Boticário todo o dinheiro que entrava era reinvestido. Eu vivi com o pró-labore por dez anos. Em 1992 inauguramos a fábrica, a primeira unidade industrial.


J: Qual foi um dos momentos mais difíceis para O Boticário?
M: Em 1987, a grande crise financeira do país foi um período muito delicado para O Boticário. Fase do Plano Cruzado. As vendas despencaram quase que 70% e foi necessário fazer um acordo de cavalheiros com os principais fornecedores para não ter que fechar as portas. Ficamos sem dinheiro, ninguém pagava. Fui fazer um empréstimo no banco e o cara me disse que eu tinha de dar toda a minha fábrica como garantia. Eu agradeci e fui embora. Isso foi marcante na minha memória.


J: Como saiu dessa situação?
M: Eu tenho oito ou dez fornecedores estratégicos e fui falar com eles. Disse: “Devo, não nego e vou pagar. Vocês me conhecem e sabem que o dinheiro vem do giro do negócio. O sistema de franquias é interessante, mas nessa hora não posso colocar os produtos pra vender em tudo que é lugar. É por meio das narinas dos nossos franqueados que entra o oxigênio.” Então os fornecedores foram parceiros. Viram que não era um problema meu, e sim conjuntural.


J: Quanto tempo durou toda essa crise na empresa?
M: Uns seis meses, no máximo um ano. Fico admirado com a capacidade do brasileiro em absorver e enfrentar crises. Espero que esta geração, acostumada com a estabilidade, seja capaz de ser flexível para enfrentar as possíveis turbulências.


J: E o Plano Collor, como foi para O Boticário?
M: Fez com que a empresa tivesse que sair para o mercado externo para buscar materiais para embalagens, contato com designers. Quando o mercado abriu, os franqueados entraram em pânico. Ninguém se dava conta de que o canal de distribuição era o segredo do negócio. Começamos uma caminhada mundo afora atrás dos fornecedores das grandes marcas. Fui para Paris, onde consegui um designer francês para uma fragrância e pedi para usar a imagem e a credibilidade dele, associadas ao produto. Ele desenvolveu um perfume chamado Floratta. Lançamos e fizemos muito barulho na mídia. Fomos também atrás de fabricantes de embalagens plásticas. Fizemos casamentos com fornecedores de alumínio, de plástico. Eles traziam tecnologia para o país e nós barateávamos o custo.


J: O Boticário é conhecido pela sua capacidade de inovar. Qual produto você destacaria?
M: A perfumaria e a cosmética vivem e dependem de inovação. Um exemplo é a fragrância Malbec, que usa o processo de fabricação do vinho aliado ao do perfume. Uma tecnologia desconhecida no mundo. Fomos a primeira empresa brasileira a trabalhar com nanotecnologia em cremes. Diminuímos as partículas dos ativos para que eles atuem nas camadas ideais da pele. Também desenvolvemos com os produtores da cidade de Holambra (SP) uma parceria na criação de flores aliada aos cosméticos. Um exemplo é o Lily Essence. As flores nascem dentro da fábrica e capturamos a essência através de um método da Antigüidade o enfleurage.


J: (Outra vez a alquimia entre passado e o futuro).



Em fevereiro de 2008 Miguel passou a presidência para seu cunhado, Artur Grynbaum, que está ao seu lado há 23 anos. Miguel continua ativo na empresa, embora mais focado na estratégia global. Possui muitos planos. Ele se considera um homem realizado – só quer levar a marca O Boticário mais adiante. Hoje a empresa tem 1,2 mil funcionários diretos e 14 mil indiretos. Seu grande projeto pessoal está voltado para o social, utilizando a força de sua rede de franqueados. Está decidido a colocar essa questão como prioridade e fazer a alquimia colaborar para um país mais justo. Essa é uma excelente notícia!



J: Como foi a passagem da presidência executiva?
M: Acho que as coisas foram acontecendo. Meu CEO está comigo há 23 anos e é meu cunhado. Ele é a continuidade. Hoje a empresa está num modelo consolidado de negócio. E a estrutura precisa ser continuada e melhorada. Eu sempre pensei que tinha que colocar uma data para essa sucessão. Agora não é mais assim. O Artur vem crescendo dentro da companhia.


J: A sucessão tem sentimentos positivos ou negativos?
M: Muito mais aspectos positivos. Não fui obrigado a passar o cargo. Trabalhei essa idéia dentro e mim e tenho muita confiança na continuidade. Continuo trabalhando bastante, mas já coloquei a atividade física na minha rotina. Resolvi assistir a todos os filmes que queria, faço inglês três vezes por semana, duas horas por aula, e tenho professores diferentes. Sou um aluno assíduo e aplicado. Tenho mais contato com as pessoas. É muito diferente ir a uma convenção de franqueados como CEO e como Presidente do Conselho. As pessoas se aproximam mais. Contam suas histórias.


J: Qual seu próximo desafio?
Vou contribuir com os aspectos estratégicos. O Boticário não é só uma indústria de cosméticos. Há toda uma cadeia de valores muito importante. Por outro lado temos trabalho de responsabilidade social. Acredito que todas as empresas privadas deveriam olhar pra isso. Estamos pensando em outras coisas além da Fundação Boticário. Queremos que essa visão social permeie toda a nossa estrutura. Acredito que temos causas em que todos podem estar envolvidos. Esperamos que os franqueados façam algumas ações sociais com a nossa orientação. Temos a preocupação de conversar sobre responsabilidade social com toda a nossa rede de fornecedores, franqueados, colaboradores.


J: Seria um sonho não-realizado?
M: Tem uma frase que mostra muito bem o que eu quero fazer: “As suas memórias nunca podem ser maiores do que os seus sonhos”. Acho importante você ter projetos, se apaixonar e dar sua contribuição. Posso dizer que tenho um vulcão dentro de mim. As instituições financeiras estão ruindo porque não estavam em bases sólidas. Precisamos saber qual é o nosso tamanho real. Novas oportunidades estão surgindo. Devemos encontrar novas soluções para que as coisas sejam mais justas. A vida não é eterna e quero deixar a minha marca.


J: Como você gostaria de ser lembrado?
M: A frase talvez seja parafraseando o Pablo Neruda: “Confesso que ajudei a transformar”. Desde a perfumaria até a vida dos meus atuais colaboradores. Eu amo o contato com as pessoas.


J: Qual foi o ingrediente que transformou o sofrimento que você viveu nessa pessoa positiva que é hoje?
M: Perseverança. Jamais parei no “não”! Tive tranqüilidade em saber e confiar na minha capacidade. Dar valor a coisas que estão em outras dimensões. E ter ao meu lado pessoas benignas. O mais importante da vida é estar sempre apaixonado pelas coisas e pelas pessoas. Isso é a energia vital que move tudo. Vou construir uma sinagoga em Curitiba e quero fazer um memorial do holocausto. Porque muito daquilo que sou começou no sofrimento dos meus pais. Mexeu no meu âmago e ajudou a construir meus princípios e valores.



Em fevereiro de 2008 Miguel passou a presidência para seu cunhado, Artur Grynbaum, que está ao seu lado há 23 anos. Miguel continua ativo na empresa, embora mais focado na estratégia global. Possui muitos planos. Ele se considera um homem realizado – só quer levar a marca O Boticário mais adiante. Hoje a empresa tem 1,2 mil funcionários diretos e 14 mil indiretos. Seu grande projeto pessoal está voltado para o social, utilizando a força de sua rede de franqueados. Está decidido a colocar essa questão como prioridade e fazer a alquimia colaborar para um país mais justo. Essa é uma excelente notícia!



“ACHO IMPORTANTE TER PROJETOS, SE APAIXONAR E DAR A MINHA CONTRIBUIÇÃO. PRECISAMOS ACHAR SOLUÇÕES PARA QUE AS COISAS SEJAM MAISJUSTAS. A VIDA NÃO É ETERNA E QUERO DEIXAR A MINHA MARCA. POSSO DIZER QUE TENHO UM VULCÃO DENTRO DE MIM”



A SALA DE MIGUEL KRIGSNER chama a atenção pela beleza e cuidado na decoração. Ampla, tem bonecos e marionetes artesanais, muitos troféus, esculturas típicas da arte nordestina, uma vitrine cheia de frascos de vidro e belos tapetes persas. Ao lado da sua mesa há um texto com moldura pendurado na parede. É uma poesia escrita pelos seus funcionários, homenageando seu fundador pelos 30 anos do Boticário. Todo esse ambiente está em sintonia com nosso entrevistado, homem calmo, amoroso, com gestos ponderados – mas os olhos cheios de energia infantil. Miguel tem a sabedoria daqueles que não deixaram o poder subir à sua cabeça e estão sempre abertos para o novo. Como um mago, criou fórmulas mágicas desde a sua infância. Fez do sofrimento da sua família uma alquimia para o sucesso e a felicidade. Com essa garra, ele transformou O Boticário na maior franquia de beleza do mundo.



Ver, ler, ouvir, pensar, por Miguel:


TRÊS FILMES IMPERDÍVEIS


Cidadão Kane – Pelo seu roteiro, que demonstra a busca existencial do protagonista durante toda vida, por alguma coisa que perdeu em sua infância e apenas no leito de morte descobre o que era.

Retratos da vida – Várias histórias de pessoas em locais diferentes que se entrelaçam durante a Segunda Guerra Mundial e se encontram casualmente em Paris após a guerra, tendo como música de fundo o Bolero de Ravel.

A insustentável leveza do ser (também o livro) – História de amor permeada por um momento político muito crítico, do domínio da União Soviética.


TRÊS LIVROS DE CABECEIRA

A cura, de Arthur Schopenhauer

O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini

Exodus, de Leon Uris

TRÊS MÚSICAS MARCANTES

5ª sinfonia de Beethoven

Noturnos, de Chopin

She, de Charles Aznavour


“LOGO PENSEI QUE A ÚNICA MANEIRA DE CRESCER COM O BOTICÁRIO ERA FAZER ALGO COMPLETAMENTE DIFERENCIADO. NÃO HAVIA EMBALAGENS SOFISTICADAS. ENTÃO BUSQUEI A QUALIDADE, QUE VIROU QUASE UMA NEURA PARA MIM”

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