MAGO DOS MUSEUS
 

O criador dos museus modernos

 

COM OBRAS ESPALHADAS PELO BRASIL, MADRI E BERLIM, MARCELLO DANTAS ABRE SUA CASA-ESCRITÓRIO E CONTA COMO TEM IDÉIAS INOVADORAS

 

TEXTO POR RENATO BRASILEIRO

 


SEMPRE RODEADO por mulheres e se deslocando numa proporção de 40 km/h durante o ano, se pensarmos em toda a distância que ele percorre. Um rockstar? Nada disso: o carioca Marcello Dantas, 42 anos e pai de três filhas, é curador e designer de exposições.
Um dos fundadores da Magnetoscópio, ele está entre os mais conceituados museum makers do mundo. Atuante em vários países, Dantas sempre quis viver num mundo de constante exploração de novas linguagens, mas custou a entrar nele.


Tinha o sonho de seguir a carreira diplomática, mas abandonou a idéia e começou a estudar Comunicação. Formado em Cinema e Televisão, e pós-graduado em Telecomunicações Interativas pela New York University, Dantas também estudou História da Arte e Teoria de Cinema em Florença, Itália.


No início, seu trabalho era focado na idealização de programas de TV a cabo, um gênero que permite maior liberdade de criação. “Na década de 90 era impossível se sustentar só com exposições”, lembra Dantas. Após perceber que os formatos estavam se repetindo, optou por abandonar a TV e encarar o mundo dos museus.


Vivendo em São Paulo desde 2005, leva em sua casa, no bairro dos Jardins, uma rotina muito mais calma e tranqüila que aquela que tinha quando morava no Rio. “Tenho uma vida de interior dentro da capital. Trabalho em casa e quando preciso ir ao escritório, faço isso a pé.”

 


Dia de trabalho


Quando não está viajando pelo mundo entre reuniões e passeios, peregrina entre os dois escritórios montados em seu próprio lar. Um é destinado somente a ele (em uma saleta ao lado da porta social), e o segundo (um salão espaçoso nos fundos da casa), reservado para a equipe da Magnetoscópio. Raramente vai ao escritório administrativo, situado em um edifício comercial a menos de 100 metros de sua casa.


O curador só começa a trabalhar quando encerra suas obrigações paternas. “Normalmente são duas reuniões por dia: uma na parte da manhã e outra à tarde. E não tem hora para terminar. Praticamente tudo que faço está ligado ao trabalho”, inclusive o almoço, realizado com alguns funcionários no jardim de sua casa, em uma mesa rústica de madeira embaixo de um caramanchão. E o cardápio é todo preparado pelo designer, desde a seleção dos ingredientes até a preparação dos pratos.


Para Dantas, isso é mais que uma distração. “Faço questão desse tipo de integração. Vivo no mundo da virtualidade. A arte é uma simulação. Por isso é necessário esse contato direto com o mundo”, explica. Com uma equipe composta por 35 pessoas, em sua grande maioria mulheres (“por causa da eficiência feminina”, diz), Dantas lidera o seu time com tranqüilidade. “Delego muito poder para meus funcionários e todos têm liberdade. Criamos um ‘norte estético’ e, baseado nele, temos nossas idéias”, comenta.

 


Produzindo com conforto


Com mais de 100 projetos no portfólio, Dantas não mostra sinais de tédio ou cansaço. Durante o almoço embaixo do caramanchão, ele anuncia aos funcionários presentes a mais nova aquisição da empresa. “Estou comprando um trailer, o Magnetomóvel”, brinca. A idéia de poder transportar equipamentos e funcionários a lugares distantes reflete a ambição do curador. “Cada vez mais estamos realizando projetos em lugares ermos, e a idéia do trailer é dar conforto.”


Questionado a respeito de como consegue lidar com projetos de cronogramas tão extensos como o Museu da Língua Portuguesa, que demorou cinco anos para ficar pronto, Dantas suspira: “Cronograma nunca é algo preciso”, confessa. E explica que “uma das preocupações é atingir resultados técnicos construtivos com o andar da carruagem”.


Com a intenção de mostrar ao público um novo tipo de museu, a maior preocupação dele é fazer com que o espectador se lembre das obras como uma experiência de vida. “O objetivo das exposições é a imersão. O público precisa entender e viver o que está acontecendo”, diz.


Talvez as obras pelas quais Dantas tenha mais carinho em seu currículo sejam seus projetos “reais”. Cotado para ser o curador de uma obra que contará a história do Brasil a partir da trajetória artística de Roberto Carlos, ele se empolga com a perspectiva de mais uma vez retratar a realeza. “Tenho certa experiência com reis. Fiz a exposição sobre a Democracia na Espanha, em Madri, para o Rei Juan Carlos, criei o PeleStation para o Rei Pelé, em Berlim, e agora estou fazendo um museu para um sheik árabe”, revela.

 

 

Extras
- Marcello Dantas viaja mais de 400 mil km por ano a trabalho – e depois aproveita a milhagem acumulada para passear mais um pouco
- Apesar de abusar da tecnologia nas exposições, ele não usa mais que um celular e um laptop para trabalhar
- PeleStation: exposição montada durante a Copa da Alemanha (2006), com um estádio virtual que projetava imagens de 40 metros, dando ao visitante a sensação de estar em plena Vila Belmiro no auge do Rei.



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