Márcio Braga
 

UP TO DATE ENTREVISTA  


MÁRCIO BRAGA


O cartola mais polêmico, hoje, do futebol nacional conta sua história de 30 anos como dirigente do Flamengo e dispara contra presidentes de clubes, Rede Globo, Clube dos 13, o G4 (grupo que iria, segundo ele, renovar o clube dos 13) e políticos.

| TEXTO MARCO ANTÔNIO LOPES
FOTOS MARCELO CORREA |



Quando Márcio Braga começou como cartola no Flamengo, em 1977, o clube devia para 33 bancos. Três décadas depois, a dívida continua gigantesca, em torno de U$ 180 milhões – como na maioria dos grandes do futebol, insolúvel. O esporte mantém-se deficitário. Márcio Braga entrou numa fase de ouro do Flamengo, pelo menos em campo. Administrou um clube que tinha um esquadrão com Zico, Júnior, Andrade, Nunes, Leandro. Em 1987, Marcio Braga era deputado federal constituinte quando voltou ao clube para se reunir com outros dirigente e formar o Clube dos 13, tentativa de tirar o futebol do país do atoleiro. Houve mais confusão – torneios e títulos contenstados pela CBF, brigas de bastidores, rompimentos, disputas no tapetão. Hoje ele articula com outros dirigentes a formação de grupo novo, o G4 (Flamengo, Corínthians, São Paulo e Botafogo), dissidência do Clube dos 13. “Mas já está temos brigas, conflitos de interesse. Os dirigentes do futebol não sabem discutir, ou não conseguem debater questões básicas de organização”, afirma Braga, conhecido por não ter lá muitos cuidados em falar o que pensa.


Marcio Baroukel de Souza Braga, 72 anos, tabelião há 50, formado em Direito, casado, pai de cinco filhas, é de família classe média alta da zona sul do Rio. Mora no Arpoador. O dirigente começou no clube na década de 70. Conhecia flamenguistas ricos, que o fizeram chegar a um diretor do Banco Central na época – que abateu dívidas do clube. Com amigos como Walter Clark e Calinhos Niemeyer, formou um grupo de oposição à presidência do Flamengo, até chegar ao posto de principal dirigente do clube – que ele ocupou algumas vezes entre 1977 e 2008. “Sempre que o clube está em dificuldade financeira, me chamam”, fala, irônico, sem modéstia. “Este ano seremos campeões, ou hexampeões”, disse em outubro a repórteres de jornais. Com fama de polêmico ou fanfarrão, ou conciliador e ponderado, conforme a visão de amigos ou inimigos, variou, nesta entrevista de quase duas horas, entre o polido e crítico ao desbocado. “Sou dirigente, mas torço pelo time”, avisa, apontando quadros na sala feitos com fotos de Zico e outros craques, do papa João Paulo II segurando uma bandeira do Flamengo e dois textos épicos, emoldurados, de Nelson Rodrigues, torcedor histórico do Fluminense, exaltando a entrega da torcida flamenguista nos estádios. A entrevista foi feita na sala da presidência do clube, no bairro da Gávea. “Fico aqui todo dia até as 10 da noite. Só saio daqui para ir pra casa, ou para o Maracanã.”



Quando você diz no jornal que o Flamengo vai ser hexacampeão, faz isso para estimular os jogadores ou para provocar os dos outros times? Ou as duas coisas?
Falo para incentivar a equipe. Sou de falar o que penso, sou emocional.


Muitos comentaristas de futebol criticam essa sua postura, de cartola interferir nos assuntos de comissão técnica.
Não estou preocupado com a opinião dos comentaristas.


Você acompanha as mesas redondas?
Já não acompanho mais. Passo o dia todo aqui no Flamengo. Não tenho mais saco e já estou com mais de 70 anos. Acostumei a levar porrada.


De quem?
Prefiro nem dizer. Na verdade, nem sei mais quem fala bem ou mal.


Mas afinal você acha sensato se meter em assuntos do futebol?
Eu só opino.


Na escalação, também?
Ah, não, isso nunca. Isso quem faz é o técnico.


Já teve alguma conflito com o Caio Júnior?
Nunca, temos ótima relação. No futebol do Flamengo, minha relação é de presidente com profissionais. Contratamos e pagamos bem nossos profissionais para isso. Nunca dei e nem vou dar pitaco. Não dou palpite na escalação ou na preparação física. Trato as questões maiores e eles tratam as deles.


Já saiu em jornais e foram comentadas rusgas suas com o Caio Júnior.
Jamais. Eu acho o Caio ótimo.


Você é presidente do clube. Suas declarações emocionais nunca afetaram negativamente os jogadores ou provocaram tensões?
Não tenho problema com a massa. Às vezes os torcedores profissionais causam atritos, um ou outro xinga, mas nada de grave. As últimas declarações foram de cobrança porque o time ainda não estava se encaixado no campeonato. No meio do ano, perdemos jogadores e chegaram novos. Tivemos resultados nem tão positivos. Se ganharmos até o final do torneio, seremos campeões. Todas as minhas palavras são de incentivo e com as melhores intenções. Já vi o Flamengo estar melhor e perder e vice–versa.


Por que o futebol brasileiro está sempre em crise financeira? Culpa dos cartolas?
O futebol brasileiro carece de oxigenação, de os dirigentes discutirem os problemas. Isso não é só no futebol, é no esporte no Brasil, em geral. Mas o futebol é o carro-chefe, que rende milhões. Quando criamos o Clube dos Treze, em 1987, era para termos um fórum de debates e avançar para formar uma liga no país. O problema do Flamengo é o mesmo do São Paulo, que por sua vez é o mesmo do Atlético Paranaense e do Internacional e todos os outros. Nós não discutimos a questão da pirataria, a questão tributária, a questão gravíssima de exportarmos as nossas estrelas para montar espetáculos lá fora, em detrimento do nosso campeonato. Quando você ouviu falar numa reunião de clubes na sede da CBF? Nunca, porra! O Clube dos Treze foi criado pelo Carlos Miguel Aydar, do São Paulo, por mim e pelos outros para ser o nosso fórum, uma liga de verdade. Era era a nossa intenção e não só organizar uma competição.


Por que não deu certo?
Por vários motivos. Vou contar o início dessa história do Clube dos 13. Em 1987 o presidente da CBF, Otávio Pinto Guimarães, era muito amigo nosso e tinha sido presidente da Federação no Rio de Janeiro. O Otávio foi para a televisão, no Jornal Nacional, da Globo e disse que não íamos organizar o campeonato naquele ano. Quando eu ouvi aquilo, pensei: é a grande chance de mudar tudo. Liguei para o Carlos Miguel Aydar, dirigente do São Paulo, e disse que achava que estava na hora de nós organizarmos o campeonato e formarmos a base da nossa liga. Decidimos fazer a Associação dos Grandes Clubes brasileiros, os quatro do Rio, os quatro de São Paulo, dois de Belo Horizonte e dois do Rio Grande do Sul. Fizemos contato, nos reunimos e decidimos por ter um representante do nordeste. Convidamos o Bahia. Porque a praça de futebol da Bahia é uma das melhores do Brasil. Aí surgiu o nome fantasia Clube dos 13. Conseguimos nos organizar juridicamente em uma Associação. Fizemos o projeto de marketing e a TV Globo, que na época tinha o Armando Nogueira como diretor de telejornalismo, apoiou.


Veio então Copa União.
É. Nas conversas eles decidiram bancar o torneio. Entraram com 3 milhões de alguma coisa, não lembro qual moeda. Com a força da Globo e os 3 milhões nós organizávamos o campeonato. Conseguimos mais 3 milhões com projetos de marketing, vindos da Varig. A Coca-cola patrocinou a camisa de todos os clubes, menos a do Flamengo, que já era Lubrax, e a do Internacional. Reunimos seis milhões e fizemos o campeonato. Foi uma tentativa real de tentar profissionalizar ou dar uma estrutura melhor para o futebol brasileiro. Foi uma tentativa de fazer a liga. Mas não conseguimos fazer a nossa. Em 1989 o Ricardo Teixeira foi eleito presidente da CBF. O programa número um do programa dele era acabar com o Clube dos Treze. Ele vinha eleito pelas federações e eram e são elas as maiores inimigas da idéia da liga. Porque na hora que existirem as ligas nacionais, as regionais acabarão. E as federações são as grandes fontes predadoras do futebol brasileiro. Os dirigentes dessas federações se eternizam nos clubes, mas mesmo assim estão sempre vivendo momentos de dificuldade.


Antes, no ano da Copa União, teve a final decidida no tapetão.
Em 1987, quando organizamos o campeonato, já na segunda ou na terceira rodada, a CBF resolveu fazer um outro torneio. Editou um regulamento com módulos amarelo (Copa Brasil era o nome oficial) e verde (Copa União), que se cruzariam no final. Mas a competição já iniciara e não tinha nada a ver. Decidimos por unanimidade não participar dessa final. Flamengo foi campeão, Inter, o vice.. Aí o vice do Otávio assumiu. O Otávio já estava muito doente e acabou falecendo. O Nabi Abi Chedid resolveu consagrar o cruzamento e tanto o Flamengo quanto o Internacional se recusaram a fazer a final da CBF. Tivemos o apoio de todos os outros clubes e ele resolveu consagrar o Sporte Club do Recife como campeão brasileiro pelo regulamento dele, claro. Essa é a confusão que todo mundo faz. O Flamengo chegou ao pentacampeonato comigo e só foi ser campeão novamente em 1992. O São Paulo demorou esses anos todos, para ser penta o ano passado. E querem entregar a taça ao São Paulo. É claro que o São Paulo é penta, legítimo, mas o Flamengo é desde 1992. A taça pertence ao Flamengo. Se há alguma dúvida é coisa de cartola, coisa de cartolagem e não é do povo. O povo sabe que o Flamengo é o dono.


Você é cartola.
Te falei. Houve mudança de rumos em 1987, apoiadas por todos os clubes do módulo verde. E o Flamengo acabou campeão.
O Clube dos Treze nada mais é, hoje e dia, que uma agência da Globo. A emissora tinha e tem um contrato e isso dá muito poder a ela. O recurso passa por ela até chegar ao clube.


Mas são os clubes quem fornecem os craques, o espetáculo.
A história do Clube dos 13 se perdeu no início. O Vasco traiu. Na verdade quem traiu foi o Eurico Miranda. O Ricardo Teixeira se candidatou, vindo eleito pelas federações e querendo acabar com Clube dos Treze. Colocaram o Eurico Miranda para ser vice da CBF. Aí acabou a unidade. E está aí até hoje no Vasco da Gama fazendo esse papel horroroso de dividir e não deixar somar. O Fluminense foi perdendo substância e se juntou mais ao Vasco do que ao Flamengo e Botafogo. Os times de São Paulo têm uma dificuldade enorme de união. Eles, como entidade, dividem pra reinar. Não há unidade de comportamento e com isso é que pensamos nesse G4, formado por Flamengo, Corinthians, São Paulo e Botafogo .


Qual a chance do G4 ir para a frente?
Na verdade, acho complicado porque a idéia nem saiu do papel e já há confusão, conflitos. O Corinthians já foi colocado como membro da comissão de contratos. Enquanto o São Paulo e o Botafogo foram convidados para formar uma comissão de marketing. Estão alojando um aqui e outro ali e fugindo da discussão formal. Isolam o Flamengo que é o único que grita e coloca o dedo na ferida. Aí dividiu e pronto. Com todas as circunstâncias que você viu, fica difícil de avançar. Acho que quando o Ricardo Teixeira bater os 20 anos no poder, em 2014, vamos ter condição de avançar. Outra questão crucial no futebol brasileiro, de sobrevivência, é o calendário. O Flamengo não leva mais sua marca lá para fora. Ninguém joga no exterior. O Flamengo teve proposta para jogar lá fora e não jogou porque o calendário não permite. São Paulo e o Corinthians também não vão. Quem vai é a Seleção brasileira. Então estamos segurando o mercado pra Seleção brasileira que joga com os nossos jogadores e não nos paga nada. Paga zero. E quem é que manda no calendário? A CBF.


Tudo é culpa da CBF?
Não, dos clubes também, que não se unem, nem discutem juntos. Quantas vezes nós nos reunimos pra discutir isso? Os jogadores são todos formados aqui e vão jogar na Europa. Ano passado exportamos mil jogadores, em 2006 oitocentos e no ano anterior, 700. Nossos craques estão jogando lá fora. Todos sabem. Não só pela questão do pagamento e também pela questão do calendário, que não dá pra concorrer com eles. Se no meio do ano se abre uma janela, os jogadores são levados para fora do país e geralmente é nesse período que acontecem a Copa do Mundo, Olimpíada, Copa das Confederações, Copa América. Os clubes têm seus jogadores selecionados e você não tem o que fazer senão vender. E tem outra: na minha opinião, esse campeonato de pontos corridos está errado.


Por quê?
Ele não é correto porque é inspirado no sistema europeu. Não podemos concorrer com eles, que estão muito na frente e têm muito mais investimento. Nós temos que adotar o modelo americano, de liga e de play off.


Qual seria seu calendário?
Precisa ter um campeão no primeiro turno, outro no segundo turno e uma final entre os dois. Os EUA param para ver uma final de basquet, beisebol, futebol americano. Você pode estar em qualquer buraco que está todo mundo vendo. Os maiores anunciantes querem anunciar, na TV é o minuto mais caro da televisão americana. Por que não fazer aqui? Nós não temos nenhuma tradição européia. Nossa tradição é americana e temos que adaptar o nosso calendário e entrar nas disputas das formas de liga.


Mas pontos corridos não fica mais emocionante a temporada toda?
Aí é uma questão de optar pelo que é melhor para o espetáculo. É preciso olhar para a rentabilidade do campeonato. Ninguém vai jogar mais 70 ou 75 partidas por ano. Que sejam 80. Você tem o campeonato brasileiro e tem os estaduais. No Rio, o Flamengo e os grandes clubes jogam contra Olaria, Campo Grande, Bonsucesso e daqui a pouco com o Central de Barra do Piraí. Isso aumenta nosso prejuízo. É assim há 100 anos. Não rende nada. Eu quero me pegar com o Corinthians e com o São Paulo, aí simvai render público, dinheiro de TV. É uma conta simples de resolver. Essas partidas precisam ser rentáveis. Senão como vamos sustentar um cube centenário? Só vendendo atleta pro exterior.


Voltando aquela mesma questão do início da entrevista. Os clubes no Brasil estão sempre endividados. Por quê?
Olha, eu não sou contra a Globo. Eu sou a favor da “TV Globo Futebol Clube”. Mas são eles os responsáveis por manter as coisas nesse estado. Eu já disse isso pra eles. A Globo é a única emissora avançada tecnologicamente e que paga um bom preço. No campeonato de 1987 foram 3 milhões e alguma coisa. Já em 2007, 20 anos depois, pagaram U$ 300 milhões e para este ano 400 milhões. O investimento é alto. Agora vamos ver a transação jurídica. Vem alguém da Globo aqui no clube e diz que quer comprar os nossos direitos por U$ 300 milhões, mas que nós só vamos receber um percentual disso, já que não jogamos o campeonato sozinhos. O quanto vamos receber depende de uma terceira pessoa jurídica, que é o Clube dos Treze (ou para os 20 clubes do campeonato hoje). Eles pegam os 300 ou 400 milhões e dividem em partes iguais entres os clubes participantes. Com as placas e os direitos internacionais recebemos proporcional também – ou seja, cerca de 1/20 do total. O pay per view devia ser diferente porque serve a cliente fidelizado. O cara paga pra ver o Flamego jogar, mas o clube recebe a mesma quantia que Figueirense, Goiás, Atlético Paranaense -- sendo que vendemos mais de 2 milhões de ingressos por ano. Quando a Globo vem aqui, só nos resta perguntar onde é que assinamos.


Por que assinam?
Não tem outro jeito! É por isso que eu me rebelo e que tomo tanta porrada. Acabo ficando sozinho. Assino porque o Corinthians se apertou e assinou, porque o Botafogo já tinha assinado antes e o São Paulo idem, porque o Corinthians já assinou. Eu fecho o contrato com toda simpatia e sorrindo. Eles [os homens que representam a Globo] são muito bem preparados, excelentes profissionais, só que um bando de filhos-da-puta!


Mas são eles que negociam com vocês.
Estão ali para fazer o melhor negócio para eles. Enquanto permanecer essa estrutura, tudo vai continuar igual. Todos os clubes tem dívidas de mais de 100 milhões de dólares e todos dizem que estão negociando suas dívidas com jogadores, procuradores e fornecedores ao longo prazo com a venda de jogadores para fora do país. Essa é a história do futebol brasileiro há mais de trinta anos. É a nossa realidade. Até o São Paulo, que é clube mais bem administrado há vinte anos, com estádio, dois centros de treinamento, se não vender jogador, não fecha no azul. Tem renda de estádio, tem marketing, e mesmo assim só fecha positivo se vender atleta. Se no São Paulo é assim, imagina pra baixo.


Essa associação do Flamengo e do Fluminense -- anunciada este ano -- para administrar o Maracanã vai ajudar o estádio, o Rio, os torcedores ou só os clubes?
Não. Isso é uma coisa completamente diferente. Nós estamos fazendo um programa de revitalizar. Quando o projeto foi idealizado, foi pensando na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. È para privatizar a gestão do Maracanã. Por fora o estádio não pode ser mexido porque é tombado pelo patrimônio. Aí encontraram uma empresa americana para fazer um business plan sobre esta privatização e chegaram a conclusão que não podem fazer nada sem o Flamengo, porque o clube é responsável por 70% da arrecadação do futebol carioca. Para se pensar em fazer alguma coisa com estádio é preciso estar com o Flamengo ao lado. Será uma PPP – Parceria, Público, Privada.


Vai ser feita uma licitação. Não há, por enquanto, concorrentes. Está tudo acertado antes?
Não, claro que não. Me preparei para discutir com o governo do Rio sobre o projeto. Corri o mundo para ver o há de melhor em gestão e estrutura de estádio. No ano passado vendemos mais de 2 milhões de ingressos. Nossa torcida é uma lição pra todos os times. Uma pesquisa mostrou que, com 33 milhões de pessoas, o Flamengo está na ponta. As pessoas vêm de fora para ver o Flamengo jogar. Mas para o estádio, para o torcedor, concluímos que o melhor seria colocar o Fluminense e a Seleção Brasileira nesse projeto. Mas ainda não sabemos qual será a dimensão da reforma. Ninguém vai ganhar essa licitação de nós. Contratamos a melhor empresa de engenharia, temos conteúdo e agregamos a Seleção brasileira.


Você não se dá com o Ricardo Teixeira. Como vai trabalhar com ele nesse projeto?
Business é business. Estamos falando de Flamengo e CBF e não de Ricardo e Marcio. Ano que vem meu mandato acaba, vou embora e virá outro dirigente. Mas se fizerem bobagem, volto pra consertar. Cheguei aqui há quatro anos e não tinha talão de cheque. Hoje estamos saindo do buraco, pagando os credores. Acho esta foi a pior crise. Estado de insolvência decretado, tinhamos que vender tudo que tínhamos e mesmo assim não ia pagar tudo. Era impagável. Cerca de 6 anos depois, vou deixar o Flamengo equacionado. Sobram 180 milhões de dívidas fiscais, mais as trabalhistas, a cível. Mas já paguei, em 4 anos, 50 milhões. O clube mandou 23 atletas para os Jogos Panamericanois, mais 5 técnicos, e trouxemos 10 medalhas. Se fossemos um país teríamos chegado em décimo quarto lugar, sem um real de recurso público. O COB recebeu mais de 700 milhões de reais, mas aqui não entrou nenhum real. Tudo foi sustentado com o dinheiro da arrecadação do futebol. Mesmo em crise. Tudo para manter a tradição do Flamengo poliesportivo. Não adianta brigar com o Ricardo Teixeira. Ele vai ficar aí até 2014 e vamos ser parceiros na obra do Maracanã. Já dizia o ditado, “malandro que é malandro não estrila, muda de esquina”. Eu vou mudar de esquina, não adianta debater. Ele está muito poderoso. [irônico] Ricardo Teixeira, agora, é meu melhor amigo de infância.


O Timemania tem resolvido as finanças?
Isso nada mais é do que um projeto de recuperação dos créditos da sociedade civil. Vamos pensar, se o Flamengo fechar devendo 180 milhões quando o governo vai ver esse dinheiro? Nunca. Com o resto das instituições esportivas acontece a mesma coisa e a Timemania foi a forma que o Estado encontrou para receber o que os clubes devem. Porque para poder participar é preciso declarar toda sua dívida e assumir-se como devedor. É preciso assinar um termo de confissão de dívida e dar como garantia de pagamento seu símbolo, a sua marca, para que seja explorado numa loteria que vai arrecadar e pagar essa dívida. O projeto é excelente para o governo. Para nós é bom porque ficamos em dia com a União. Desde que paguemos todo mês o INSS e o Fundo de Garantia. Mas é melhor pra eles que vão arrecadar os créditos que nunca recuperariam. Nós não estamos preocupados com a performance do projeto, mas ficamos ligados.


Você já foi deputado federal. Por que saiu do Flamengo para virar político?
A política esta no sangue. A minha passagem por Brasília foi ótima, uma experiência maravilhosa. Fui deputado no final da ditadura e fui eleito para ser membro da executiva do PMDB e isso me deu uma visão mais ampla e um convívio com todos eles. Fui reeleito e virei coordenador da campanha das Diretas Já. Perdemos no plenário, entramos na campanha e alcançamos a Constituinte. Fui reeleito deputado, em 1986. Naquele mesmo ano eu tive que voltar a ser presidente do Flamengo. Em 15 dias eu tive que sair de uma campanha e entrar em outra. Eu quase colocava uma cama no meu gabinete em Brasília. Aquelas votações não acabavam. Saía as 2, 3 da manhã e vinha pra cá e saia daqui e ia pra lá. Eu quase morava no Flamengo e no meu gabinete. Mas quando você faz o que gosta, você faz com alegria. Quando eu era jovem, muitos anos antes de virar dirigente do Flamengo, a idéia era me formar em Direito e talvez seguir pra diplomacia. Mas o Presidente Juscelino Kubistchek me desviou, digamos.


Como assim?
É que eu namorava uma moça, com quem acabei casando, que era sobrinha dele. Ela é mãe das minhas filhas. Convivi muito com o Dr. Juscelino. Ele gostava muito de mim. Pra você ter uma idéia, a segunda vez que ele foi a Brasília fui com ele. A primeira missa de Brasília, em janeiro de 1957, também estava lá. A vida do Dr. Juscelino era muito regrada. Acordava as 6 da manhã, tomava café as 7, tomava lanche as 10, almoçava a 1 h, dormia depois do almoço durante meia-hora, quarenta minutos. Tomava um lanche às 5 h da tarde e jantava as 9 h da noite.


Sempre no horário assim?
Sempre. Às 9 h da noite no jantar, no palácio, ele olhava para o coronel Lino Teixeira, que era piloto do avião da presidência, e perguntava como estava o tempo. Acabávamos de jantar saíamos dali e íamos para o aeroporto Santos Dumont. Voávamos 2h30 até Brasília. Chegando lá, ia visitava as obras. Pegava o avião e voltava, tomava banho e ia direto trabalhar. Chegava no Rio de Janeiro perto das 7 da manhã. As vezes ele me levava junto.


Lembra da primeira vez que viu Brasília?
A gente não tinha muita noção de como seria a cidade. Não ficava no Plano Piloto, ficava no Catetinho, que é mais afastado. Visitava as obras. Então eu via buraco e muita poeira. Na primeira missa lá a cruz estava onde hoje é a torre.


Qual a imagem que você tem do Juscelino?
De uma pessoa muito forte. Eu conheci o Dr. Juscelino quando ele era governador de Minas. Acompanhei a campanha presidencial dele. Eu era muito guri, fazia campanha carregando saco nas costas -- mas já estava metido na política, convivendo com ele. Ele conversava muito pouco comigo, tinha sempre muitos políticos por perto ou outras pessoas. E eu era só um garoto. O Dr. Juscelino foi um dos maiores estadistas do nosso país. A maior qualidade de um político é a paciência. Se você não tiver paciência, não se meta na vida pública. Aprendi isso com o Dr. Juscelino. Uma vez fomos para a feira do gado, em Uberaba -- e foi ele quem criou aquilo. Tinha um baile e ele adorava dançar com as moças.


Só dançar?
[ri] Só, poxa. No dia seguinte vínhamos para o Rio umas 8 h da manhã. O engraçado é que o Dr. Juscelino andava muito rápido, com aqueles pés dele. Saía correndo, por exemplo, para entrar no avião e vinha muita gente atrás dele. General, polícia, segurança. Uma vez, quando estávamos entrando no avião, uma senhora chamou e disse que queria falar com ele. Ele parou no começo da escada e pegou-a pelo braço. Levou pra baixo da asa do avião, porque o sol estava igual ao de hoje, bem forte. Ele escutou tudo que ela tinha pra falar. Ela deu um papel e o dr. Juscelino guardou. Volta e meia ele estava dando exemplo de paciência. Domingo ou sábado, num jogo, no estádio as pessoas estacionavam o carro e vinham falar com ele. Respondia, conversava. Sempre penso que se você não tiver isso, de saber entender o povo e escutá-lo, não dá pra fazer política. Sempre tem alguma coisa pra te falar e não é bobagem, não. Tem muita coisa interessante.


Jura? Você nunca perde a paciência?
Não, sempre tenho paciência.


Inclusive com torcedor irritado?
Ah, não tem irritado perto de mim, não. Só vem falar amenidades.


Ainda está ligado à política, filiado a algum partido?
Estou no PSDB, mas mas política partidária e eleitoral eu não faço mais. Prefiro ficar no Flamengo.


Aprova o governo Lula?
Quem conviveu com o PT na época da assembléia constituinte, como eu, não vota no PT. O partido é um desastre. Eu não votei no Lula. Mas o presidente que mais fez pelos pobres brasileiros foi o Lula. Mas o partido é um fiasco. O PT não tem compromisso com nada, se acham superiores a tudo e a todos. Votaram contra a Constituição. Não há acordo com eles, não dá pra sentar e conversar. Não gosto do PT. Mas o Lula é o presidente que tem mais identificação com o povo, ele se comunica muito bem.Tem uma sensibilidade invejável. Mas em 2010 vou votar no Serra. Já foi ministro, senador, deputado e é governador do maior estado Está a altura do cargo. Com essa crise que se instalou no mundo, fica mais fácil para o Serra passar uma idéia do que qualquer outro.


No dia-dia você ainda tem o prazer de assistir aos jogos? Vai ao Maracanã?
Sim, eu assisto, vou ao Maracanã e gosto de ver futebol na praia, na várzea, e o futebol europeu está melhor de assistir do que o nosso. É um espetáculo. Pena que podia sem melhor ainda, com mais craques...


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