ENTREVISTA
 
CONTARDO CALLIGARIS
 
UM ITALIANO QUE AFIRMA QUE NOSSOS POLÍTICOS SÃO BONS, QUE É DIFÍCIL SER HOMEM NOS DIAS ATUAIS E QUE FRASES COMO “EU TE AMO” SÃO VAZIAS. UM PROCUROU CONTARDO CALLIGARIS, PSICANALISTA E ESCRITOR, PARA ENTENDER TUDO ISSO.
CONTARDO CALLIGARIS nasceu em Milão, em 1948, trinta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Teve uma infância tão normal quanto possível numa cidade em escombros, em um país dividido entre aliados vitoriosos (caso de sua família) e fascistas derrotados. Aos 15 anos fugiu de casa para morar em Londres, porque queria ter mais contato com sua segunda língua - e também com uma canadense que tinha conhecido na Inglaterra no verão anterior.

Depois da aventura adolescente, Calligaris voltou para casa. Estudou e lecionou na Suíça e na França até conhecer o Brasil e resolver ficar por aqui. Teve sete casamentos (não necessariamente no papel) e tem um filho, que hoje mora em Nova Iorque. Nesta entrevista, o psicanalista se aprofunda sobre os temas que escreve em sua coluna semanal no jornal Folha de São Paulo. A conversa vai muito além dos temas do divã.


Q: Você defende que sentenças como “Eu te amo” simplificam o sentimento. Não pode mais dizer isso?
R:
Declarações de amor são importantes e podem ser feitas de várias maneiras. Aliás, a mais legal que eu conheço é do Jack Nicholson para a Helen Hunt em Melhor é impossível, quando ele diz que ela o torna uma pessoa melhor. A gente espera que o amor nos transforme, mas na maioria das vezes a fala amorosa substitui uma falta absoluta de gestos e atos, que são mais eficientes. O excesso dela às vezes degenera em fala infantil, que é brochante. Ou então ela pode impedir o acesso sexual.

Q: Como assim?
R:
O sexo não é tão amoroso assim. A relação excessivamente sentimental é muito chata. Amor e sexo são duas coisas distintas, são momentos separados. Podemos estar afim de ouvir certas frases, mas isso não serve para nada, não dá certeza a ninguém o fato do outro falar. Porque os sentimentos são sempre muito mais complexos, não podem ser resumidos numa fala amorosa. Ok, pode dizer que vive melhor na companhia do outro, mas só uma vez por ano (risos ). Se um relacionamento se resume à troca de frases afetuosas, ele vai mal.

Q: Qual é o maior drama que contam a você no consultório?
R:
Os de sempre: vida profissional e sentimental. E nessa última entram os amores também do quadro familiar. Mas esses são os temas. O problema é uma certa covardia em relação ao próprio desejo. Do ponto de vista da psicanálise, não tem nenhuma culpa maior do que a de ter desistido da própria vontade.

Q: O que leva uma terapia a ser bem-sucedida?
R:
Uma certa dose de sorte no encontro entre terapeuta e paciente. Habilidade do profissional, uma quantidade de paciência e muita coragem do paciente também contam. Porque a terapia quase sempre leva você a uma situação que é evitada. O mais complicado, para qualquer um, é agir à altura de seus próprios desejos.Tem outras complicações que vêm antes, porém essa é a maior. Em relação às próprias aspirações, nós somos um pouco covardes. Desejar nunca é de graça, implica em perdas, riscos e companhia. Algumas pessoas podem chamar o fato de não agir de acordo com seus desejos de responsabilidade, eu chamo de covardia. Você escolhe.

Q: Você começou sua carreira revelando fotos para uma agência de notícias. Como chegou até a psicanálise?
R:
Tinha 18 ou 19 anos, morava em Milão e era casado com uma americana. Trabalhava como fotógrafo e traduzia romances policiais do inglês para o italiano. Esse foi o único momento em que meus pais aplicaram uma forte pressão, porque queriam que eu fizesse uma faculdade. Decidi ir para Genebra estudar Epistemologia e Letras ao mesmo tempo. Embora satisfeito, eu não estava muito bem. Resolvi fazer uma análise. Fui para Paris procurar um analista. Comecei a viver entre Paris e Genebra. Passava dois dias na França e o resto na Suiça. A terapia funcionou no sentido de que os sintomas mais chatos sumiram, como uma gastrite inflamatória crônica. Comecei a me interessar com um pouco mais de seriedade por isso. Passei a freqüentar a Escola Freudiana de Paris. Em 1975 me tornei membro dessa escola, que é a mesma de Lacan. Pouco depois, decidi me tornar psicanalista.

Hipertexto – informação adicional Epistemologia é um ramo da filosofia que investiga as fontes e validade do conhecimento, o que ele é e como alcançá-lo. Suas teorias geram questões, a partir das quais surgem duas posições: a empirista (que diz que ele deve ser baseado na experiência, ou seja, no que for apreendido pelos sentidos) e a racionalista (que prega que suas origens se encontram na razão, e não na vivência). Devido à sua própria natureza, é mais comumente chamada de teoria do conhecimento.

Q: Como você chegou ao Brasil?
R:
Em 1985 fui convidado para dar palestras aqui e na Argentina. Achei muito bom, porque as platéias com quem dialoguei eram dinâmicas, simpáticas e interessantes, o que acontecia cada vez menos na Europa. Os brasileiros me convidaram para voltar. Em São Paulo, teve um grupo que perguntou se eu toparia ficar por 15 dias a cada dois meses, porque eles queriam se analisar comigo. Topei e um outro grupo em Porto Alegre fez o mesmo pedido. Casei com uma brasileira, mas isso não foi um fator determinante para vir morar aqui. Vendi minha casa em Paris e me estabeleci entre São Paulo e Porto Alegre. Hoje, estou só em São Paulo.

Q: Você ainda vota na Itália?
R:
Sim, no consulado daqui. Na verdade, faço isso com uma certa culpa, porque acho que deveria votar onde moro. Aqui é onde vivo, então poder participar das eleições faria todo o sentido. A idéia de fazê-lo na Itália é injusta. Estou contribuindo com a decisão sobre a vida de um lugar no qual eu não estou.

Q: Você acredita em algum político brasileiro?
R:
Claro.O Eduardo Suplicy, por exemplo. Mas acredito mais em idéias e pessoas do que em partidos.Tem gente que conheço pessoalmente e que é como se diz, do bem. Por exemplo, na próxima eleição para prefeito, tem mais de um candidato em quem eu poderia votar. Ainda não sei se há grandes diferenças nos programas políticos deles. Mas com exceção de algumas candidaturas pitorescas, não acho que ninguém seja uma figura sinistra.

Q: O Brasil evoluiu nesses últimos 20 anos?
R:
Enormemente.Virou um lugar muito mais civilizado, no bom sentido dessa palavra, não pensando só nos traços de melhoria da vida cotidiana, nem só para as classes A e B. Acho que os brasileiros não se dão muito conta disso, de o quanto as relações entre as classes melhoraram. É certo que as diferenças econômicas ainda são enormes. Agora, me parece cada vez menos verdadeiro que elas impliquem em uma distância qualitativa, como se os miseráveis fossem uma outra espécie, coisa que era visível há 20 anos e hoje é muito menos. As classes emergentes - essa expressão está ficando velha - além de adquirir bolsas de grife, adquirem cultura.

Fórum - opiniões divergentes A sociedade brasileira evoluiu nos últimos 20 anos?

“Há uma mudança profunda, que engloba a redemocratização do país e uma crise de inflação muito alta, ou seja, está vinculada a uma enorme desigualdade econômica. Ela vem diminuindo, mas não no sentido de termos uma classe menor de pessoas muito ricas, mas sim por termos uma pobreza menos violenta. Uma classe média com maior capacidade de consumo muda a identidade dessa sociedade. Além disso, um número maior de pessoas participa do debate cotidiano de valores. Nos últimos 20 anos assistimos ao nascimento de uma nova sociedade brasileira, que está em expansão. A internet, o fácil acesso a música, entre outros, são exemplos disso”
Marcelo Carvalho, professor doutor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo

Com certeza, a sociedade está mais aberta. Vivemos uma euforia da liberdade. Por exemplo: hoje, são raros os casos de repressão à imprensa e esses são logo protestados. No entanto, existe uma democracia sem muita regulamentação, porque o Estado fica receoso de tomar atitudes restritivas. Na publicidade, por exemplo, a liberdade é tão grande que fica difícil convencer o brasileiro a tomar menos cerveja e respeitar as leis de trânsito. Na religião também achamos muitos abusos, porque não se sabe até onde o Estado pode podar. Mas tudo caminha para que entremos em uma fase mais reguladora. Creio que Calligaris não levou em conta que a classe média de hoje cria guetos – não para isolar os miseráveis, mas para se isolar. É o caso dos shopping centers. Um miserável não é proibido de entrar, mas sabe que não é lugar para ele, não se sente bem lá”
Flávio Pierucci, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo

Q: Então você concorda que o povo brasileiro é cordial?
R:
Os brasileiros dominam a arte da convivência. Mas têm uma história complicada de relações com a lei instituída, além de uma extrema desconfiança de todas as instituições. Provavelmente porque os colonizadores vinham para saquear muito mais do que o país agüentava, sem que alguém os controlasse. Essa desconfiança certamente continua, está meio que no DNA coletivo. Ela se prolonga pelo fato de que a relação das entidades com a coisa pública, desde sempre, é uma relação de saque. A corrupção nada mais é do que a continuação do abuso colonial.

Q: Você acha que ainda existe uma distinção de raça muito forte?
R:
Estou longe de dizer que o Brasil é um país não-racista. Nem sei se isso existe. De todos os países onde morei, o Brasil passa por uma extraordinária negação dos problemas e das diferenças raciais, mas é uma negação sofisticada. Certamente não é racista. Todos os países da Europa vêm bem antes, pode ter certeza.

Q: E a imprensa colabora nessa negação? Ou ela é, como dizem hoje, um partido político?
R:
Não só no Brasil, mas em todo o mundo democrático. E é bom que seja. Não existe nenhum tipo de democracia possível sem uma imprensa livre - ainda mais no Brasil. A constituição brasileira, diferente da dos EUA, por exemplo, não é construída para proteger o indivíduo contra os abusos possíveis do poder. A imprensa, em qualquer democracia, é um quarto poder necessário. E especificamente acho que ela é uma espécie de advogado do cidadão, frente aos abusos do poder público. Sem ela, não sei se existiria no Brasil hoje um telefone que ainda não fosse grampeado.

Inside | Jacques Lacan Psicanalista francês (13/4/1901 – 9/9/1981), exerceu grande influência sobre a psicanálise francesa dos anos 70 como intérprete da obra de Sigmund Freud. Nasceu na cidade de Paris, formou-se em Medicina e especializou-se em psiquiatria com a tese de doutorado A Psicose paranóica em suas relações com a personalidade (1932). Entrou para a Sociedade Psicanalítica de Paris em 1934, com o objetivo de resgatar os fundamentos de Freud. Para Lacan, o que importa observar em um paciente em análise não é tanto o que ele diz, mas como. A interpretação lacaniana da psicanálise, com base na forma da linguagem, faz com que seu método terapêutico desconsidere a necessidade de um tempo rígido para as sessões de análise.

Q: Voltando aos relacionamentos. Você diz que gosta de monogamias sucessivas...
R:
Não acho que seja impossível se apaixonar por uma única pessoa e viver com ela toda a vida. Se isso funciona para o casal, ótimo. O que não acho muito interessante é a poligamia.

Q: A exclusividade faz diferença?
R:
A única coisa que eu valorizo verdadeiramente é a qualidade e a intensidade da experiência. Uma das coisas prazerosas em ter uma relação a dois é descobrir o outro - não só as virtudes, mas também os defeitos, e aprender a conviver com eles. Porém, se você vive várias relações ao mesmo tempo, vai perder alguma coisa em intensidade e qualidade.

Q: Então é difícil ser homem?
R:
Hoje é muito complicado. Seus modelos de identificação o desmoronaram. Para um homem, até 1940 ou 1950, isso era extremamente simples e bem-descrito. Então a coisa mudou, também como conseqüência da mudança feminina. As pessoas se deram conta da sexualidade da mulher. A partir desse momento, o homem foi completamente interrogado pela questão da sua capacidade de dar prazer. A mulher não tem um problema equivalente. Se o cara é brocha, ela vai saber logo. Ele fica na constante incerteza quanto a saber se está ou não altura do que a mulher espera dele. Os modelos de ideal masculino também ficaram mais complexos. Com a ajuda do cinema e da televisão, algo heróico, que vai de Superman a Indiana Jones, se acrescentou aquele ideário viril de provedor. Para um rapaz com 12 ou 13 anos, é muito difícil decidir o que é ser homem hoje em dia. É ser um mafioso do bando de Al Pacino ou um rapper com 14 anéis? É ser um jogador de futebol ou o cara engravatado que de vez em quando sai com a mãe dele? Tanto é que os adolescentes dessa idade variam de uma tribo para outra com muita rapidez. Nessa busca de identidade, ele acaba fazendo demais para se mostrar e parecer homem, até na resposta das mulheres.

Q: E isso gera problemas com o sexo?
R:
Tudo o que aconteceu dos anos 60 até agora, no sentido da igualdade entre homens e mulheres, foi construído em cima de uma vasta repressão, que continua até hoje. Todas as fantasias sexuais são atravessadas por idéias de poder e dominação. Digo com certeza: não existe sexo entre iguais. Pode existir relação, mas na hora da transa alguém precisa dominar. A fantasia sexual moderna, e essa foi uma das maiores descobertas de Sade, completamente atravessada por fantasias eróticas de poder. Então isso torna a igualdade complicada. Quanto mais as fantasias de dominação são reprimidas na vida sexual, tanto mais elas acabam subterraneamente funcionando na vida relacional.Ou seja, se eu evito uma fantasia trivial, amarrar minha parceira ou algo assim, e continuo praticando um sexo convencional, essa fantasia reprimida vai funcionar de maneira não-prazerosa e não-sexual para nenhum dos dois.

Q: Para terminar: há textos seus que falam da expectativa da morte. Você tem medo dela?
R:
Morrer é chato, é uma saída de cena, é triste. Minha sensação, quando tive um diagnóstico errado e o médico me disse que eu morreria em pouco tempo, não foi de desespero. Claro que hoje vejo coisas que fiz nesses dez últimos anos e que naquela e que na época pensei que não chegaria a fazer. Mesmo assim, meu primeiro cuidado foi fazer um balanço retrospectivo. Foi legal descobrir que, mesmo que minha vida acabasse naquele momento, teria sido triste por mil razões (como não ver meu filho crescer), mas no geral, a “corrida” tinha sido boa. E “boa” não tem nada a ver com sucesso, e sim com ter vivido com qualidade e intensidade.

 
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