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CONTRA-CORRENTE |
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Eles só querem confete |
FALAR MAL DE ALGUÉM É UM ESPORTE NACIONAL, TODO MUNDO SABE. MAS É PRECISO DIZER: O QUESTIONAMENTO MINIMAMENTE BEM-ELABORADO A RESPEITO DO TRABALHO DE QUALQUER PESSOA, DE ARTISTAS A APRESENTADORES DE TV, COSTUMA TER REAÇÕES BEM TRUCULENTAS
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TEXTO: MARCO ANTÔNIO LOPES
Ele tem 66 anos, 43 de carreira, 39 discos lançados (o primeiro é de 1967), um piti no VMB (“arruma essa porra de som, MTV!”), e se importa muito com o que dizem dele – sobretudo, claro, quando falam mal.
EM 2008 HOUVE, se contei direito, 4.597 shows em homenagem aos 50 anos da bossa nova. No final de agosto, um deles foi com Caetano Veloso e Roberto Carlos, com orquestra, no auditório Ibirapuera, local chique, elegante. A platéia fina aplaudiu tudo, incluindo versões insípidas dos sucessos de Tom Jobim e de João Gilberto. No dia seguinte vieram as críticas. A Folha de S.Paulo cravou um “os artistas aceitaram passivamente fazer um show contido, bem-comportado, de arranjos convencionais. ”O texto termina assim:“Pobre Tom Jobim...” O Estado de S. Paulo foi mais explosivo: “Caetano, o Rei e o show da naftalina”. Um dos trechos do artigo: “Chamaram dois totens da MPB para fazer a necrópsia da bossa nova”. Sou suspeito, porque não sou lá muito chegado em MPB (pode, certo?). Não é questão antipatriótica. É gosto.Cada um faz o que bem entender com seu estômago e ouvido.
No dia seguinte à opinião dos jornais, Caetano Veloso bufou no seu blog: “Há dez anos não leio nada tão errado sobre música brasileira. A crítica é provinciana. ”Veloso chamou a jornalista que escreveu na Folha de “boba ” e do Estadão , de “burro ”. Ele é assim, a gente sabe. Deveriam ser comemorados, em 2008, os 50 Anos dos Chiliques de Caetano Veloso na Imprensa. Alguém dirá, pollyannamente: “Ah, mas o Caetano tem o direito de rebater”. Só que, senhor(a) Pollyanna, convém lembrar que ele também pode, vez ou outra, não dar a mínima para os que se metem a detonar algo de sua autoria. Ou soltar logo um “babem, eu sou um ícone”. Caetano Veloso não é o único. O fenômeno do “não falem mal do meu trabalho ” sempre foi nacional. Claro que, no meio dos ataques, sempre há os xingadores e insultadores profissionais. Na verdade, esculhambar qualquer coisa é um esporte olímpico nacional. “É ruim e pronto, não venha discutir comigo”, um, digamos, argumento bem difundido.
Voltemos aos textos que saem na imprensa. Se um jornalista disser que tal novela foi escrita de maneira tediosa, a resposta de um autor poderá ser: “Quem é você para falar mal de mim, sua besta?”
Há alguns anos, uma escritora e apresentadora de TV aborreceu-se com a crítica de um livro dela. Fez uma bravata à repórter: “Se te pego na rua, bato em voc”.
Teve um comentarista de programa esportivo na TV que recebeu um e-mail. Na mensagem foi dito que o tal cronista estava equivocado num comentário. O jornalista, sujeito dos seus 60 anos, quase esmurrou a mesa: “Eu cobri oito Copas do Mundo, 12 Olimpíadas, 43 Panamericanos ”. Cômico. Poucos são os que levam na esportiva. A maioria, ao menor sinal de ataque, se der, entra logo num Hezbollah imaginário para promover ações terroristas. Não se admite questionamento. Outro dia, minha mulher foi ao dentista para fazer uma operação delicada. O cara cometeu uma barbeiragem odontológica e ela ficou com dores insuportáveis. Voltou ao consultório para reclamar. Ouviu: “Tenho mestrado na Unicamp. Sei o que faço ” . Um conhecido teve seu cartão do banco clonado. Reclamou com a gerente. Resposta da moça: “Você não dá sorte mesmo, né? Nosso banco faz tudo pelo cliente”. Alguém precisa, já, contratar um personal-auto-estimator para essa gente – dos cantores aos dentistas. “Não gostei desse seu texto”. Não? Jura? Então vou me vingar, seu provinciano!
Marco Antônio Lopes é jornalista. Possui uma coleção de uns 2.987 discos (dois do Jorge Ben e um do Tim Maia, beleza?).
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