COMPORTAMENTO
 
Os Limites Emocionais dos Homens
 
Ser homem não é fácil. Todos esperam que você contenha suas emoções e mostre força mesmo em momentos de angústia. Será que tem de ser assim?
TEXTO: SIMONE SERPA


O MITO tem seu fundo de verdade: homens, em geral, são mais fechados, sim. “Podemos considerar isso normal, mas não natural. Afinal, ninguém nasce travado. Sem dúvida a criação, a educação e os modelos que são passados ao menino é que acabam por influenciar esse tipo de comportamento”, explica Luiz Cuschnir, médico psiquiatra e psicoterapeuta especialista nas relações entre homem e mulher. Sylvia Marzano, urologista e terapeuta sexual, concorda e destaca que ainda hoje a criança aprende, desde cedo, que homem não chora nem demonstra os sentimentos porque isso é “coisa de menininha”. Assim, mesmo que ele descubra em seu amadurecimento que emocionar-se nada tem a ver com sexualidade, dificilmente muda suas atitudes. Por quê? Por causa da pressão que ele sofre, e não só em casa. “O rapaz convive com esses conceitos estabelecidos em vários ambientes (como família, círculos de amigos, escola) e recebe essas informações de diversas maneiras, estruturando assim a identidade masculina”, complementa Luiz Cuschnir. Muitos especialistas – e muitas mulheres também – acreditam que já está na hora de mudar esse quadro.

Um ser todo-poderoso
“Certas pessoas, quando se tornam pais, gostariam de beijar, abraçar, dar carinho ao filho e simplesmente não conseguem”, explica Sylvia Marzano, urologista e terapeuta sexual. Da mesma forma, há aqueles que têm dificuldade de falar o que sentem à parceira, atitude que geralmente é alvo de fortes e incisivas reclamações femininas. “A maioria diz que ama só na cama, e mesmo assim, depois de muita cobrança”, exemplifica Sylvia. Talvez esse não seja o seu caso, mas em geral, a tribo masculina tem pouca familiaridade com o lado sentimental. Isso faz com que o homem se atrapalhe até mesmo para entender o que de fato está sentindo. Esse pouco entendimento da própria emoção gera ansiedade e frustração, e como poucas vezes ele sabe resolvê-la, é comum se esconder sob a fachada do macho todo-poderoso. Essa imagem é como um papel que, depois de algum tempo, vai ficando cada vez mais difícil de sustentar e representar. Tanto peso e tantos tabus os tornam bem seletivos. Isto é, se houver necessidade de procurar ajuda de alguém ou pedir algum conselho, certamente buscará as poucas pessoas que lhe são íntimas. Para as mulheres, que chegam até a sair tagarelando com todas as colegas e conhecidas (ou qualquer um que pare ao lado dela no ponto de ônibus), é difícil entender isso. “O homem precisa se sentir extremamente seguro com a pessoa com quem escolheu se abrir”, diz Irineu Deliberalli, psicólogo e autor do livro Só para homem (Editora Michael). “Há segredos que ele guarda e não passa nem para o melhor amigo”, completa Cuschnir.

Hiperlink navegue pelo site Tudo o que sentimos precisa ser verbalizado?
Na entrevista do mês (Mestre em finanças), o psicanalista Contardo Calligaris defende a idéia de que nem tudo precisa ser dito e que algumas frases devem ser evitadas – como a clássica “eu te amo”. Mas nem por isso o homem precisa ocultar o que passa em seu íntimo.

“Tenho certa facilidade em começar amizades e namoros, mas sinto que as coisas acontecem com certa superficialidade. Apesar de tentar ser mais transparente e com o passar dos anos constatar uma melhoria considerável, ainda me vejo confuso com meus pensamentos. Tem coisas que não abro nem pros melhores amigos ou para a família. Isso me frustra. Algumas mulheres, num primeiro instante, são atraídas por um tipo mais fechado e inabalável, mas depois sentem falta de alguém que se abra e diga o que realmente sente.” Renan Varela Garcia Annize, 24 anos, designer

Busca aprenda mais, muito mais Nas telas, eles são menos reservados

• Em Homem-Aranha 3 (2007), Peter Parker, interpretado por Tobey Maguire, chora quando é abandonado por Mary Jane (nós também choraríamos se a Kirsten Dunst nos largasse).

• Robert Redford e Morgan Freeman são dois velhos ermitões com uma amizade de longa data em Um lugar para recomeçar (2005). Só que a neta do primeiro pensa que isso é homossexualismo disfarçado!

• Brad Pitt chorou em Sete anos no Tibet (1997), quando se encontrou com o Dalai Lama.

• Em Unidos pelo sangue (1991), Charles Bronson não chora, mas desaba emocionalmente ao rever os vídeos da família após o funeral da esposa.


Quem sofre é a saúde

Essa atitude gera angústia que, se ficar ali guardada, certamente não fará bem. E nesse ponto todos os especialistas são unânimes. “Segurar emoções dificulta a elaboração de medos e aflições, prejudicando a maneira como a pessoa forma vínculos, parcerias, ligações de trabalho, tudo”, diz Sylvia Marzano. “Preocupações, ansiedades, medos, estresse: energias que não são extravasadas acabam sendo somatizadas em seu organismo”, explica Irineu. “Dependência de álcool ou drogas, problemas cardíacos e gástricos, podem ser indícios dessa solidão masculina”, afirma Cuschnir. A grande jogada é conseguir se livrar dessa máscara de herói inabalável. “Quanto mais o homem expressar o que sente, mais chances terá de criar relações intensas e prazerosas”, ressalta Irineu.
Se isso acontecer, quem está ao redor (parentes, amigos, colegas) se beneficia. E ninguém perde. Não custa lembrar: tente demonstrar afeto, mesmo que isso lhe pareça supérfluo ou tolo. “Sentiu vontade de abraçar, abrace. Pense na sensação de bem-estar que você está passando para quem está com você”, aconselha Sylvia. Outra coisa importante: beijar o filho é sinal de carinho e não de homossexualidade. E tem mais: chorar não é vergonha alguma. “É importante entrar em contato com seus sentimentos, e não só os bons, os doloridos também”, enfatiza a urologista. Então, coragem! É preciso ser homem – e homem também se emociona!

“O homem é mais fechado porque é treinado para brigar pelo trabalho, pela sobrevivência, e nessa hora não pode mostrar suas falhas e inseguranças. Eu tive muitas responsabilidades desde cedo, não podia errar e aí me fechei para muitas coisas. Às vezes, parece que não temos o direito de falar o que sentimos, e outras nem de sentir! Só falamos de nossas angústias quando estamos prestes a explodir. Eu tenho um filho e uma filha e é clara a diferença entre os dois. A menina é supercarinhosa, toda hora vem, dá beijo; já o menino é mais na dele e eu sinto que também ajo diferente com ele, mas estou procurando mostrar-lhe mais meu afeto. Para mim não era fácil dizer o que sentia a uma mulher. Ainda é complicado demonstrar meus sentimentos, mas já consigo um pouco. Acho que as mulheres levam uma grande vantagem em poder chorar à vontade. O choro traz alívio, conforto” Ricardo Freitas, 31 anos, dentista


“Nunca foi difícil expressar meus sentimentos, porque nunca achei falta de hombridade fazê-lo. Ser guiado por tabus nos torna menos espontâneos e verdadeiros, e assumimos papéis que não condizem com nossas emoções ou pensamentos. Já perdi muitas mulheres pelo simples fato de me expor em demasia, pois talvez, na visão delas, um homem não pode ser vulnerável. É aí que elas se contradizem por completo: é como se desejassem alguém que as subjugue e que não seja honesto. Isso é horrível, tratá-las como mero objeto sexual, sem direito à individualidade. Elas querem o quê? Um ser robótico, que não falha nunca? Acho que muitos homens não se abrem mais com medo de sofrer alguma represália ou de serem menosprezados. Mas se você se esconde, se torna recalcado, infeliz” Rodrigo Saffuan, 25 anos, assessor de imprensa




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